quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Crianças.


Hoje vou falar um pouco sobre uma obra envolvendo crianças vítimas de violência encarando a dura realidade de um mundo cruel e com um toque de sobrenaturalidade. Será que pode haver esperança no fim do túnel?

Kizu é uma adaptação de uma obra criada por Otsuichi, renomado autor de contos de horror especialmente conhecido por Goth, que recebeu uma adaptação para mangá e um filme live-action. Como outros tanto contos de Otsuichi, Kizu recebeu várias versões em mangá, trago a vocês a que eu achei de melhor qualidade, tanto na adaptação da estória como na arte, adaptação esta que ficou a cargo de Hiro Kyohara, conhecido por essas bandas pela arte do mangá Another.

Basicamente Kizu nos trás a saga de Keigo, um menino com uma vida conturbada, apanhava violentamente do pai que era alcoólatra e sua mãe fugiu de casa, vivendo desde então na casa de tios que não davam a mínima para ele. Neste contexto, em sua escola, por arranjar encrenca com outros alunos ele é transferido para uma classe especial onde são agrupadas crianças vítimas de violência e possuidoras de outros traumas diversos, não importando a série em que estejam. Certo dia chega nesta turma outra criança, Asato, um menino quieto que não falava com ninguém. 

Um dia depois das aulas Keigo estava esculpindo algo em madeira quando acabou por ser cortar, vendo isto, Asato se propõe a ajudar e quando o toca algo surpreendente acontece, Keigo se vê curado de seu ferimento e Asato criou um machucado no mesmo local, então ficou claro que Asato possuía um poder especial, o de absorver os ferimentos das pessoas. Então os dois meninos resolvem ajudar as outras crianças com seus pequenos ferimentos, mas fica a questão, quantos ferimentos Asato poderá suportar e quais as cicatrizes ele terá que carregar no lugar dos outros?



Kizu é uma obra muito especial, embora todo mundo saiba quão dura é a realidade humana, quando nos deparamos com coisas absurdas não há como não exclamar "como o ser humano é filho da p***". Este mangá aborda, fora o toque de misticidade, a vida de crianças vítimas de violência, Asato não é exceção, como Keigo, sua família também fora arruinada, só não vou entrar nos detalhes para não dar spoiler. Alguns questionamentos surgem ao longo da obra, o porque de uma criança, já repleta de sofrimento se dispõe a absorver o sofrimento alheio? Sentimento de culpa? Esperança de um mundo melhor? Deixo ao leitor a tarefa de interpretar tal singularidade.

A realidade é violenta com as duas crianças, elas somente têm um ao outro para poder sobreviver no mundo selvagem, embora as vezes encontrem alguém com quem compartilhar momentos felizes, é muito fácil se decepcionar com os adultos. A narrativa é agridoce, pautada no contraste entre as raras cenas felizes que a dupla de amigos protagoniza, como quando trocam trabalho por sorvete e ajudam as criancinhas no hospital e as cenas mórbidas que transmitem um sensação de inevitabilidade da condição degradante do gênero humano, como o bullyng sofrido por Keigo por causa da má fama de seu pai.

Ressalta-se que quem espera um desenvolvimento ou explicações acerca do aspecto sobrenatural da obra não vai ser muito feliz, porque no caso o poder de Asato, embora no decorrer da trama se desenvolva de maneira interessante inclusive com novas habilidades descobertas, é puramente simbólico, dispensa explicações, simbolismo este que é o objetivo da obra.


 


Segundo Otsuichi, Kizu é uma obra de sua juventude, ele nem havia ao menos terminado seus estudos, mesmo assim transmite uma maturidade única. O autor ao tecer alguns comentários no final do mangá conta que se inspirou para escrever Kizu em livros de Tory Hayden, um psicologo americano que estudava crianças vítimas de violência, então temos um bom toque de realismo nesta obra.

Em relação ao poder de Asato, eu fiz uma relação com algo levantado no próprio mangá quando Keigo apanhava de um valentão, porque as crianças têm que suportar a culpa pelos erros de seus pais, onde está a justiça na vida? Porque ser punido por algo que não dei causa? Bem, é como se as crianças fossem obrigadas a absorver o sofrimento alheio. 

Embora a vida seja dura, Kizu expõe uma sempre possível esperança no fim da jornada. Embora o ambiente aonde a criança cresce e a educação familiar sejam dois pilares da formação do caráter, não determinam exatamente o que o indivíduo vai se tornar. Registro a importância de nosso livre arbítrio que vai ser preponderante para definir as escolhas para nossa vida.

A arte do mangá é muito bonita, ao ler eu não havia ligado o nome do artista à sua obra, mas eu havia achado semelhante com algo que eu já havia lido,no caso, Another. Embora Another não seja um primor nos termos da estória em si, não há do que reclamar da arte, Hiro Kyorama é um mangaká muito eficiente, seu traço consegue transmitir os sentimentos necessários para complementar o enredo, pelo menos em Kizu, foi muito feliz nisto.


Embora seja uma one-shot, os personagens foram bem desenvolvidos, notadamente a dupla de protagonistas, Keigo e Asato, o restante serviu meramente como background da trama, mas devo destacar a sorveteira que foi muito simbólica para o desfecho da trama.

A leitura foi muito agradável, além de não gastar muito tempo com ela, e se você gosta do gênero e está a fim de se emocionar com um mangá tocante, Kizu é mais que recomendado, nos presenteia com a mensagem de que uma flor de esperança pode nascer em um deserto de sofrimento e agonia, por meio da força de uma amizade. 


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