quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Little Forest, que tal aprender a cozinhar? [Volume 1]


Calma e serenidade da vida no campo, para que viver tão apressado?

Bem, hoje farei uma recomendação que seria uma resenha caso eu não tivesse descoberto que esta obra possui dois volumes e não apenas um como eu imaginei, e que este segundo volume eu não tenha encontrado em nenhum lugar traduzido do japonês ainda, o que impossibilita a análise da obra em sua totalidade. Embora pareça estranho alguém não perceber que um mangá acabou ou não, vocês irão me perdoar ao entenderem do que se trata Little Forest.



Little Forest é uma obra composta por dois volumes totalizando 26 capítulos, publicado de 2004 à 2005 na revista seinen Afternoon, sendo até mesmo nomeado ao Osamu Tezuka Culture Award de 2005. Quanto ao autor, Little Forest é obra Daisuke Igarashi, aclamado mangaká japonês. Embora não seja tão famoso no âmbito comercial, suas obras são reconhecidas pela crítica especializada, focado em trabalhos repletos de fantasia, surrealismo e espiritualidade, tendo como inspiração primordial a natureza e temas folclóricos. No entanto Little Forest foge um pouco do habitual de Daisuke Igarashi, uma vez tratar-se de um slice-of-life, embora eu possa garantir que escapa totalmente do comum para o gênero, sendo uma grata surpresa para mim.



Hora de falar da obra em si, Little Forest nos apresenta o dia a dia de uma garota apenas conhecida como Ichiko, que mora sozinha numa casa isolada em uma vila localizada em uma floresta, chamada de Komori, literalmente pequena floresta. Bem, quanto a estória, ela é episódica, não importando por qual capítulo você comece, no entanto não destituído de ligação um com o outro, formando um mosaico com as peças juntadas em cada capítulo. Sabemos pouco sobre a vida de Ichiko, não sabemos seu sobrenome nem sua idade, só sabemos que ela mora sozinha, seu pai é ausente, sua mãe sumiu por algum motivo desconhecido e por algum período de tempo morou com um cara, o qual sabemos muito pouco também, além de nos apresentar alguns poucos amigos e outros moradores do vilarejo que interagem com ela.

Curiosamente todos os capítulos são nomeados como receitas típicas ou nem tanto do Japão, não sem lógica, pois sempre nos é apresentado a respectiva receita sendo elaborada e explicada pela protagonista, não apenas o preparo mas a coleta de cada ingrediente além da forma de plantio e outras dicas! Muito útil para aprender sobre a culinária e cultura japonesa, por exemplo, tempo úmido é muito bom para fazer pães.




Ichiko extrai quase tudo, uns 90%, do que precisa da natureza, seja das hortas ou da floresta em si, o que ilustra bem um modo de vida orgânico, esta interação com a natureza consome a maior parte do mangá, a interação com os outros personagens, embora existente é relativamente pouca e quando ocorre sempre são diálogos repletos de significado como qual o sentido de se levar uma vida naqueles moldes, o matrimônio, o porque de se abandonar a cidade grande, as lições de moral de que a natureza nos dá e o valor de produzir algo com as próprias mãos.



É notável que Ichiko não vive uma vida isolada porque deseja fugir de seu passado ou quer se ausentar da sociedade, mas pelo fato dela apreciar a vida calma e serena que o campo pode lhe proporcionar, pois percebe-se a importância da interação humana naquele meio, como a cooperação entre os vizinhos, o que já não ocorre na cidade grande onde o individualismo reina. Os maiores conflitos em sua vida sem dúvida são mostrados nos flashbacks de sua mãe, o qual é possível verificar alguns assuntos não resolvidos e algum urso que possa causar certa bagunça em sua vida pacata.


É de se destacar que a narrativa não segue uma progressão temporal, alguns capítulos Ichiko é apenas uma criança e outros já é uma mulher, embora seja um pouco complicado distinguir sua idade. Também é corrente na obra a ocorrência de monólogos, haja vista que Ichiko em boa parte de suas atividades trabalha sozinha.

Outro ponto interessante é a calma em que o mangá é desenvolvido, Ichiko raras vezes se exalta, penso que seja uma similaridade com a própria vida rural, onde cada coisa possui seu tempo certo para ocorrer, e isso vale para o leitor também, podemos ler Little Forest de forma sossegada, sem pressa, eu particularmente demorei um certo tempinho para terminar estes 16 capítulos do primeiro volume, pois é uma obra a ser apreciar de forma lenta, correndo o risco de se tornar de certa forma enfadonha caso lida às pressas.


Que tal fazer sua própria Nutella em casa? 
Fugindo do característico do autor, esta obra é muito particular, não possui nenhuma extravagância sobrenatural, apenas a vida cotidiana em uma comunidade agrícola, embora não esteja totalmente ausente de um toque de mágica refletido pela natureza. Também pode ser notado o sentimento transferido pelo autor nesta obra, uma vez que conforme se pode verificar com a leitura, o autor possui um bom conhecimento da vida do campo. Inclusive no final dos capítulos ele dá dicas acerca do que foi relatado no respectivo capítulo, além de confidenciar experiências pessoais no preparo das receitas de forma como se estivesse falando com um amigo de uma maneira casual. Também é digno de nota que ao final do volume nos é apresentado um glossário, o que é muito útil para mim, pois só conheço o básico do básico da culinária japonesa e durante a obra foram apresentados legumes, raízes e receitas as quais eu nunca havia ouvido falar.


Bolo de repolho? Essa foi nova para mim, quem sabe eu não tento aqui em casa?

Artisticamente falando, a arte do mangá é um dos pontos mais controversos da obra, haja vista que muito poderão virar a cara para os traços simples e rabiscados, embora tais traços rabiscados sejam a característica fundamental de Daisuke Igarashi. Em Little Forest foi aplicada uma simplicidade além do usual em contraste com outras obras ricas em detalhes, tais como Witches, a qual pretendo falar sobre em ocasião diversa. Mesmo assim, não vejo isso como um problema, mas como uma escolha interessante haja vista a proposta da obra que é nos inserir no universo de Little Forest, onde a simplicidade reina, tudo regado a um toque de expressividade e poesia.



Bem, para finalizar, se você não se importar com a ausência de drama, de romances e de qualquer coisa que caracterize um slice-of-life clássico e quer experimentar algo totalmente único e que foge do usual, por ser relaxante e trazer bons sentimentos, além de que você poderá aprender bastante sobre culinária e a vida no campo, até mesmo tentar por em prática algumas das receitas propostas no mangá ou iniciar uma pequena horta, quem sabe? Little Forest é mais do que recomendado por minha pessoa. Eu nem sei se eu poderia classificar tal obra como um slice-of-life, pois para mim é mais similar a um diário. Bem, enquanto espero uma possível tradução dos segundo volume, fico feliz com o que li, pois não há uma necessidade urgente de seguir com a estória.

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