quarta-feira, 24 de junho de 2015

Sora Tobi Tamashii. Espíritos Voando no Céu.


Quem acompanha o blog já sabe que Daisuke Igarashi é um dos meus autores favoritos tanto é que um bom número de obras suas já foram analisadas por mim, como Unwelt, Witches e Little Forest. O que me atrai no trabalho dele é a sua familiaridade em tratar do sobrenatural de uma maneira sutil, fazendo parecer que é algo natural de nosso cotidiano, assim como ocorre com Miyazaki em seu extenso trabalho no Estúdio Ghibli, tanto é que Daisuke Igarashi teve Miyazaki como inspiração.
Sora Tobi Tamashii que vou analisar agora é uma coleção de estórias curtas de Daisuke Igarashi, assim como Witches, sem, contudo, possuir uma temática única, entretanto estão ligadas pela unidade do trabalho do autor em criar um ambiente místico único e imprevisível, mas belo e sutil.

Sora Tobi Tamashii foi originalmente publicado na revista “Afternoon” voltada para a demografia seinen em agosto de 2002. Entretanto tal trabalho foi uma compilação de estórias publicadas separadamente em outras épocas. Trata-se de uma one-shot, um único volume composto por 6 capítulos, cada capítulo uma estória diferente sem ligação com a outra.


A arte do mangá não deixa a desejar, o traço característico de Daisuke Igarashi, embora possa assustar os que não estão acostumados, possui uma leveza única, parecendo por vezes esboços, com alguns personagens pouco detalhados e fora de proporção, mas isto não depõe a desfavor do autor, muito pelo contrário, casa perfeitamente com a proposta do trabalho dele.
Entretanto, essa leveza e simplicidade dos traços criam imagens belíssimas, principalmente quando o autor se propõe em desenhar uma imagem grande de duas páginas, onde é possível observar a qualidade de seu desenho. Embora a qualidade de desenho não se compara à Witches por exemplo, onde se percebe um maior esmero do autor.
Tanto é que são inegavelmente belíssimas suas páginas duplas, e até algumas páginas únicas, visto a riqueza de detalhes quando busca desenhar algum evento sobrenatural, realmente se tratando de um estilo bem pessoal. A paleta de cores também ajuda a compor um ambiente harmonioso, o uso das tonalidades certas nos momentos certos, como a predominância do uso de cores quentes como o vermelho e o marrom na primeira estória que se passa na montanha que foi totalmente colorida, sendo um espetáculo à parte. E, assim como nos traços do desenho a pintura também é sutil e intermitente, parecendo aquarelada.


Bem, quanto ao conteúdo, resolvi abordar a análise da seguinte maneira, depois dessas considerações gerais da obra passarei a analisar cada capítulo separadamente, por se tratar de obras distintas, merecendo que eu comente cada uma individualmente.
Por serem estórias de apenas um capítulo, variando de menos de 10 páginas a no máximo umas 60 fica difícil fazer uma análise detalhada sem apresentar spoilers. Digo isso por causa da grande polêmica atual em torno do spoiler.
Mas enfim, não possuo um estilo de post definido, às vezes prefiro escrever pouco, outras vezes necessito escrever mais, com níveis variados de exposição do conteúdo. Eu particularmente escrevi muito nesta análise, acho que me empolguei um pouco! Então me perdoem se acharem a postagem muito extensa, mas não retirarei nada, não me sentiria bem.
Por fim, no caso desta postagem, resolvi esmiuçar cada uma das estórias, que embora pequenas possuem um rico conteúdo, portanto haverá SPOILERS, estando avisados, irei prosseguir com o trabalho, primeiramente:

BIRTHPLACE



 A primeira estória chamada “Birthplace”, local de nascimento em Português, funciona como uma espécie de introdução ao conteúdo desta coletânea de pequenas estórias, sendo a menor delas por possuir apenas 7 páginas.

Um dos destaques deste pequeno conto é o fato de ter sido elaborado todo em cores e a borda das páginas ser decorada com uma curiosa decoração, terra, que vai se esvanecendo ao subir de cada página, diante da leitura é possível compreender o motivo disto.

Como abre-alas Daisuke Igarashi faz questão de passar ao leitor o estilo que tanto o consagrou, expor o misticismo dos japoneses de forma casual e dinâmica, como fosse algo típico do cotidiano, lembrando o estilo dos filmes de Miyazaki, uma mescla da espiritualidade com a natureza e uma boa pitada de surrealismo.

O presente conto, em resumo, trata-se de uma singela história de retribuição, onde as forças da natureza retribuem a generosidade da protagonista em ceder seus bens naturais (madeira, água e terra) a uma espécie de divindade ou espírito da floresta, ofertando uma singela informação acerca da qualidade da terra encontrada na montanha, perfeita para cerâmica, além de uma bem humorada recompensa pessoal.

Semelhante ao mangá Sumiyaki Monogatari, a estória pode ser interpretada no sentido da harmonia que deve existir entre a natureza e os seres humanos, sendo que quando o equilíbrio é estabelecido ambos são beneficiados, o que é mais importante frisar nos dias atuais visto que o ser-humano, em regra, tornou-se uma criatura bastante egoísta e que mantém a natureza somente como uma fonte de riquezas que pode ser utilizada ao seu bel prazer.

Contudo, como ocorre na vida real, como nos casos de desastres naturais e mudanças climáticas perigosas, a natureza e “seus espíritos” cobram um alto preço dos seres humanos quando não são respeitados. Tal vertente vingativa das forças da natureza poderá ser bem visualizada nas próximas estórias desta coletânea, fazendo parecer que este primeiro conto é o ponto de calmaria antes de uma tempestade.

SPIRITS FLYING IN THE SKY



Sora no Tobi, Espíritos Voando no Céu em português, é um conto sobre remorso e outros sentimentos que aprisionam, ou como os piores espíritos vingativos são aqueles que você trás para si mesmo.

Esta estória é a que dá nome a esta coletânea de trabalhos de Daisuke Igarashi e senão uma das melhores da presente compilação.

Abandonando as paisagens campestres apresentadas na estória anterior, tal obra é ambientada no Japão moderno em uma cidade cosmopolita, mas, mesmo assim, como sempre digo, mesmo entre os edifícios de concreto há um espírito ou resquício do folclore japonês em cada esquina.

Tal estória se resume num caso atípico da vida de Kurito Maki, uma jovem cozinheira órfã que por acidente acaba pisando em um filhote de coruja que caiu provavelmente de uma árvore, matando-o, e que por um ato de consideração com o bichinho vai enterrá-lo junto com seu pai, que morreu por volta de dois meses antes. Enquanto a mãe do passarinho procura insistentemente o seu filhote.



Contudo, pouco tempo depois do ocorrido Maki começa a apresentar alguns sinais estranhos no seu corpo, penas de coruja começam a crescer na sua cabeça progressivamente, girando a estória em torno deste evento sobrenatural.

Maki é uma personagem muito excêntrica, ela possui um bom faro pra culinária, ou melhor, ela possui uma fome persistente, mesmo nos momentos tristes ela não perde o apetite, tais como a morte de um ente querido. Outro aspecto mórbido da personalidade de Maki é que sempre pensou em saborear e descobrir o gosto dos animais que encontrava mortos, inclusive pairou tal pensamento em sua cabeça ao segurar a corujinha morta, comparando sua pata a um pé de coelho.

Só que esses hábitos estranhos não são algo que Maki aceite muito bem, ela sente um grande remorso quando passa por estas situações, principalmente quando o pai morreu atropelado e sentiu fome ao invés de tristeza por causa do odor de comida.

Maki não poderia resolver isso sozinha, então entra em cena outra personagem de vital importância, Myiako, alguém que experimenta um destino semelhante ao de Maki ao ter seu corpo fundido com seu cão que faleceu e procura ajudar Myiako a fugir de um destino de morte certa visto este estado debilitar o corpo humano.

Myiako relembra o passado e explana que tal cadela foi sua única companheira depois da morte de seus pais em um trágico acidente de trânsito, sendo que se apegou completamente ao cão, e quando este, vindo a falecer, Myiako restou praticamente sozinha. Contudo, fica claro a grande dependência que Myiako possuía em relação ao cão que perdurou mesmo após sua morte, não aceitando que sua companheira a abandonasse desta forma.




Diante destas informações, é possível ao leitor traçar um paralelo entre as duas vítimas do destino, ambas ficaram presas em sentimentos negativos, o remorso de Maki e a dependência afetiva de Myiako. Myiako possui alguns conhecimentos de feitiçaria úteis pra ajudar Maki a se livrar do espírito que se fundiu a ela, realizando um ritual de expulsão do espírito possessor.

Mas é bastante lógico o cão ter se fundido com Myiako, no entanto qual a explicação da alma da corujinha ter se instalado na cabeça de Maki. Penso que a explicação mais óbvia neste ponto é de que o remorso por não ter sentido pena pela morte de seus entes querido se materializou no passarinho, visto ter sentido semelhante sentimento ao querer provar a coruja.

Contudo, com o desenlace do ritual, Maki se dá conta de profundas lembranças que compartilhou com seu pai, quando este disse, no enterro de sua mãe, que você tem que comer de qualquer forma, não é vergonhoso sentir fome, os vivos têm que prosseguir com a vida.

Diante deste contexto de libertação o ritual se mantinha conforme o esperado, contudo, uma reviravolta se desdobrou, não era apenas a alma da coruja que habitava Maki, mas também a de seu pai! Sendo necessária sua expulsão conjunta!

No caso do pai de Maki, este também contribuiu para ficar preso no corpo da filha, visto que presenciava um forte sentimento de não poder deixar a filha sozinha no mundo, isto esclarece que as emoções são perigosas antes e depois da morte.



Outros aspectos do folclore japonês interessantíssimo foram abordados nesta pequena estória. Como no caso da cachorra de Myiako, que curiosamente não latia. Mas isto tinha um motivo. Dentro dela habitava um Otodama, espécie de espírito do som, capaz de conferir ao ser em que vive a capacidade de manipular os espíritos da morte. Tanto é que sem essa habilidade Myiako não poderia ter ajudado Maki a se libertar.

Outra simbologia presente é a da borboleta, mencionado da obra como “avatar da alma”. Maki, no ritual devia ficar com uma borboleta na boca a fim de tudo proceder corretamente. A borboleta, tanto nas tradições japonesas, como nas budistas, gnósticas e até no cristianismo possui uma conotação com a “morte”, sendo um elemento de transição entre o mundo dos vivos com o mundo dos mortos.

Mesmo se retirarmos os aspectos folclóricos na narrativa em favor dos menos supersticiosos, a lição deixada pela estória se aplica ao “nosso mundo” por assim dizer. É sabido das consequências negativas de manter em si sentimentos negativos, eles pesam, como se fossem mesmo outras almas presas em você.



O remorso, o sentimento da dependência, assim como tantas outras emoções negativas impedem que o ser-humano prossiga com sua vida como se deve, a própria alma se converte em uma prisão, na qual o juiz que o condenou é ninguém menos que ele próprio. Tal prisão definha a vida até um estado lastimável, causando males psicológicos como a depressão entre outros, botando em risco a própria vida, assim como os espíritos possuídos da estória fizeram.

No momento que o indivíduo consegue se libertar destes grilhões sua vida poderá fluir naturalmente. Contudo, sabe-se que isto não é tarefa fácil, lidar com a morte de alguém, ou com algo que pensamos que fizemos de errado e sofremos com a culpa pode levar muito tempo, assim como ocorre com a protagonista no anime Haibanne Renmei que passa por uma árdua tarefa até se livrar completamente da culpa que o assolava aprendendo a lição que o perdão pelos seus atos deve partir primeiramente de si mesmo.

Voltando a questão do folclore, me ocorreu que até mesmo no Brasil, geralmente em regiões interioranas, há a tradição de se tomar cuidado quando da morte de um ente querido, visto que lamentar demasiado e chamar por ele pode impedir que sua alma siga o caminho adequado, ocasionando a sua prisão no plano terreno, mesmo que de forma imaterial.



E novamente fazendo um retorno a estória importante mencionar os efeitos colaterais sofridos por Maki depois do ritual, como uma pena na cabeça que sempre cresce quando a retira, talvez para relembrar que mesmo se livrando de sentimos perigosos, algo sempre fica como memória do ocorrido, uma lembrança na qual podemos conviver e é algo até mesmo positivo.

Outro dos efeitos colaterais, talvez o mais irreverente, é a capacidade de maki pode observar pequenos espíritos que ficam brincando ao seu redor. E o gran finale da estória está na mãe coruja que buscava seu filho, de certa forma a alma de seu pai se fundiu com a coruja, foi bastante macabro ver a coruja com a face do pai de Maki, talvez isso seja uma forma de descrever um “encontro de objetivos” entre a mãe coruja que perdeu o seu filho e o pai que perdeu sua filha, só que de maneira inversa, visto ser  ele que morreu.

THE TEARS OF TAROU, KILLER OF BEAR, STEALER OF GODS



Na terceira estória da coletânea saímos de uma abordagem contemporânea do Japão para uma ambientação clássica, regressando ao panorama montanhoso já apresentado em Birth Place.

Esta estória com o imponente nome “The Tears of Tarou, Killer of Bear, Stealer of Gods” que em livre tradução significa “As Lágrimas de Tarou, Matador de Ursos, Ladrão de Deuses”, poderia facilmente passar como mais um capítulo da mitologia japonesa, diferente das demais estórias onde mesmo onipresente o fator místico é bastante sutil, aqui a presença do sobrenatural é avassaladora.

Em breve síntese, Daisuke Igarashi nos conta a história de um jovem chamado Tarou que recebeu ao nascer uma dádiva dos deuses (embora seja por vezes sua maldição), uma força além dos homens comuns, descoberta ao quebrar o pescoço do urso furioso que matou toda a sua família.

Após esse evento ele foi adota por uma família de agricultores locais e passou a ser chamado de “Matador de Ursos” devido ao seu notável feito. Entretanto mesmo a sua força não impedia de ser constantemente alvo de perseguições das outras crianças que o achavam estranho. Bem, essas crianças não eram lá muito espertas, pois quem iria se meter com um moleque com força sobre-humana?

Mas enfim, Tarou foi desafiado por um valentão e acabou matando ele muito facilmente, inclusive quem ele matou também se chama Tarou e era filho da família que ele acolheu. Aparentemente as crianças duvidavam da veracidade de sua grande força. Contudo acabaram aprendendo da pior forma. Assustado e confuso Tarou foge para viver na floresta visto que acabara de matar uma pessoa e temia ser pego por isso e não poderia mais ficar na casa onde matou um membro da família.

Diante desta situação estamos diante da grande problemática abordada nesta estória, pois, mesmo tendo recebido um “presente” dos deuses, sendo que qualquer um ficaria muito contente ao receber um poder especial, o poder dado pelos deuses apenas o fazia matar e lhe causar sofrimento.



Inclusive acabou expulsando-o de sua casa, fazendo-o ter que viver na floresta. Então é possível refletir que talvez Daisuke Igarashi tentou nesta estória abordar a linha tênue que separa a benção da maldição, sendo que nada é totalmente bom nem totalmente ruim neste contexto de privilégios divinos.

Caçando para viver, Tarou acabou nocauteado por um cervo e caiu num terreno da montanha sagrada, resgatado inconsciente por alguém misterioso, acordou e se deparou com uma menina que falou que ambos morreriam se fossem encontrados juntos ali, pois era uma área sagrada moradia da divindade daquela montanha que zelava pela segurança do vilarejo abaixo e iria interromper e profanar a “Cerimônia de purificação”.

Novamente, a fim de confirmar que o autor tentou manter como tema central na estória o conflito entre benção e maldição entra em cena a personagem Kumiko, motivadora do nome da alcunha de “ladrão de deuses” de Tarou.

Agora entramos em um aspecto recorrente em alguns mangás em que eu já li, como Tokage, o qual eu já resenhei em outra oportunidade, a questão da oferenda de meninas às divindades das montanhas a fim de aplacar sua ira e impedir a destruição de seu vilarejo. Em resumo, este é o destino de Kumiko, ser oferecida como consorte do deus da montanha. A menina vai ser morta no festival, para se tornar a divindade protetora da montanha.



Em Tokage, como mencionado acima, a situação é semelhante, um deus de uma montanha exigia sacrifícios de jovens garotas para saciar sua lascívia e não castigar o vilarejo. Inclusive em Tokage este é o estopim da imortalidade do protagonista, que é como no caso de Tarou uma maldição/benção, visto o desejo ardente de poder morrer e não conseguir.

Embora deva lembrar que o uso de “sacrifícios para aplacar a ira de deuses” é bastante recorrente em diversas religiosidades ao longo da história humana, onde eram exigidos sacrifícios tanto de animais, como plantas, até mesmo de pessoas, como os sacrifícios de bebês no fogo em honra de Baal na mitologia fenícia.

Claro que sacrifícios de “sangue” sempre são mais delicados e gera repulsa a nós que não estamos mais acostumados a presenciar isso. Os Astecas praticavam tal sacrifício em grande escala, um sacrifício humano seria feito todos os dias para ajudar o Sol a nascer. Atualmente o sacrifício humano é muito raro mais pode ser encontrado em algumas seitas obscuras, embora quem realize o sacrifício esteja cometendo um típico homicídio e deverá receber as sanções legais cabíveis. Além claro de algumas tribos isoladas em lugares inóspitos na Terra.

Geralmente estes sacrifícios tinham como objetivo em tempos de desastres naturais. Secas, terremotos, erupções vulcânicas, maremotos, etc., seriam sinais de fúria dos deuses e os sacrifícios eram a forma de acalmá-los. Ou também para mante ruma proteção divina e impedir um castigo, como no caso da estória aqui abordada.

Mas voltando à dualidade da benção/maldição vemos que a menina Kumiko receberá a grande “benção” de se tornar uma deusa ao ser sacrificada, embora tenha que se morta para isso, o que faz preferir não ser uma deusa claramente. Nesta floresta há uma seita de monges que podem usar os poderes da floresta para os seus fins e são eles os responsáveis por “tratar” da oferenda afirmando que ela ganharia um “corpo que não envelhece”.

Tarou vislumbrando uma oportunidade de utilizar seus poderes para outra coisa além de matar tentará salvar a menina, redimindo-se dos seus malfeitos. Claro que Kumiko fica preocupada em abandonar tudo, pois se não tiver uma deusa a proteção da floresta termina e ocasiona calamidades e ela não iria querer carregar o peso dessa destruição na consciência.  “Uma morreria em benefício de muitos”. Mas quanto valeria uma vida? Seria errado ela abandonar tudo com Tarou, não é carga demais para uma menina carregar em benefício alheio? Estas questões ficam no ar.



Querendo ou não os dois tentaram fugir da floresta, mas os monges foram em sua perseguição. Mas além deles há uma barreira na montanha, até o tempo parou lá dentro, ninguém entra ninguém sai.

Entre a perseguição Daisuke aborda outra problemática a questão do passado de Kumiko, ela como Tarou, não teve uma infância nada fácil, foi abandonada pelos pais e criada pelos monges, seu desenvolvimento foi lento por isso foi escolhida para ser deusa. Isso o mesmo que você leu, a menina que apresentasse o desenvolvimento mais lento seria utilizada como oferenda, talvez uma analogia com a questão de possuir um corpo que durará por muito tempo, visto que a cada mil anos ocorre uma troca de deusa.

Neste ponto ocorre uma das cenas mais fortes desta antologia, para obter a preservação do corpo as meninas são mumificadas! Não é dito mas é perceptível pelas marcas de cortes e de costura no corpo de Kumiko. Não é comum a mumificação no Japão por estes meios, então é uma criação do autor, embora fosse comum outro tipo de mumificação, a de monges budistas que se enterravam vivos e preparavam o próprio corpo para que durasse muito tempo, desidratando-o.



Mesmo se tratando de uma estória curta de trinta e tantas páginas, ainda o autor nos brinda com um Plot Twist bastante surpreendente! O fato de que sempre alguém tenta salvar a deusa que será oferecida! E desta fez foi o Tarou. Tudo estava de certa forma planejado pelo destino. Enfim neste ponto todos sabem que Kumiko foi realmente sacrificada e nada pôde ser feito, Tarou mesmo com sua força não foi capaz de ajuda-la. O destino é inexorável.

Diante da falha de Tarou sua memória é apagada ao ter sue olho arrancado e colocada numa marionete serva dos monges. Tarou não se lembrará do que ocorreu e não contará ao mundo os segredos da montanha, visto ninguém de fora saber realmente o que acontece lá.

Tarou de alguma forma espanca a marionete guardiã das memórias e pega seu olho, fica enfurecido e brada que buscará vingança e matará todos eles... Percebe que só usará seus poderes para matar, então deixa lentamente seu olho cair na água e desiste do intento. Uma forma que ele encontrou de por fim ao seu destino de “apenas utilizar seu poder para matar”. O que foi bastante sensato, visto que nada mais poderia ser feito para ajudar Kumiko que agora entrara no rol de deusas da montanha.

Destaque-se para o curioso final, o qual merece todos os elogios. Um peixe come suas memórias e começa a sonhar com isso, desde então peixe para de querer dormir. Cômico e triste de certa forma. Tal estória, como eu disse no começo, é extremamente intensa e mostra uma vertente mais brutal da espiritualidade. Após isto, o leitor acalmará o espírito e irá embarcar em uma estória mais melancólica à beira-mar.

COVERED IN SAND



Esta á estória mais “humana” por assim dizer desta antologia, deixamos um pouco de lado as paisagens montanhosas para apreciarmos a suave brisa do mar.

“Covered in sand”, coberto de areia em tradução direta é a maior estória deste mangá, com 66 páginas, narra a estória de uma menina que fugiu de casa de uma maneira muito peculiar, simplesmente buscando fugir do autoritarismo dos “pais” e da sociedade que viam, segundo suas próprias palavras, a escola como um “problema de vida ou morte”. E para tanto, ao invés de desembarcar no ponto habitual, resolve experimentar ver até onde o trem iria, acabando por levá-la até uma cidade litorânea.



Na cidade, mais especificamente na praia, ela encontra por acaso um pintor de retratos trapalhão (Itou) e sua companheira (Tamako). Tamako possui uma condição física muito peculiar, o que dá o aspecto sobrenatural da obra, embora possa ser um problema meramente científico. Ela expele continuamente areia do corpo, pelos poros, sendo em maior quantidade quando está nervosa.

 A menina rapidamente forma amizade com o casal e eles a hospedam em sua casa até que ela tenha que voltar para casa. Até mesmo arranja um emprego de meio período durante sua estadia.

Desta forma, a estória gira em torno da visão da protagonista da situação tendo como objeto principal a condição física de Tamako e consequentemente sua própria condição de adolescente rebelde. Tamako sofreu muito na vida, tanto é que sua mãe faleceu ao dar a luz, visto possuir areia em sue corpo que virou lama no contato com o sangue, sim isso é muito bizarro, embora seja igualmente trágico. E para completar a situação, seu pai a abandonou.



Essa estória é a única da coletânea que não há a certeza da presença ativa do sobrenatural, visto a condição de Tamako poder estar relacionada à ciência, tratando-se mais de um conto de ficção científica do que qualquer outra coisa.

Contudo, assim como ocorre em Unwelt, obra do mesmo autor que já escrevi sobre, onde a engenharia genética dita os termos, o processo de desenvolvimento da estória se dá na mesma forma caso se tratasse de uma estória folclórica, onde o elemento sobrenatural compõe o ambiente, não sendo o elemento ativo, mas estando onipresente na narrativa, mantendo sua importância.

Daisuke Igarashi quando desenvolve uma estória na qual é baseado em algum elemento do folclore real ou pesquisa científica mantém o cuidado de realizar uma minuciosa pesquisa sobre os termos abordados, sendo perceptível na forma sútil em que o autor explica resumidamente os tópicos abordados ou busca explicações para os problemas existentes, tal como a condição física singular de Tamako.

Seguindo essa linha, surgindo de uma conversa casual entre os personagens centrais o autor cita outros exemplos de condições curiosas de pessoas que produzem substâncias estranhas pelo corpo humano, como uma mulher na Índia que produz algodão dentro do corpo, ou um rapaz de uma minoria da América do Sul que nasceu com um dente de ouro natural, ou ainda um homem africano que possuía um enxame de borboletas na cabeça, pois soltava néctar do corpo. Embora nestes casos eu não saiba se é uma invenção do autor ou não, pois não achei fontes que confirmem tais casos.



Itou e Tamako forma um casal especial, mesmo levando uma vida repleta de problemas eles convivem bem, ambos possuem características “peculiares”, o problema físico de Tamako e o talento de retratista de Itou que afirma haver “magia” nas pinturas.

Bem, a própria vida, segundo autor seria repleta de magia, visto o incontável número de situações em que dificilmente acreditaríamos que fosse uma mera coincidência, como o encontro de Tamako e Itou na praia, como a própria disse no mangá se fosse para a praia cinco minutos antes eles nunca se encontrariam.

Mas o problema de expelir areia de Tamako é muito problemático e perigoso, caso ela solte muita areia pode contrair até anemia, tanto é que esse é o motivo compõe o clímax da estória. Particularmente um desfecho bastante emocionante, quando o casal, ambos agindo conforme são protagonizam um dos melhores momentos do mangá.

 Itou por ser atrapalhado deixa os desenhos voarem pela praça e corre para pegá-los sem perceber o carro que vinha em sua direção e Tamako, diante da tragédia eminente, num ato de entrega, praticamente doa sua vida para salvar Itou, lançando toda sua areia para amortecer o impacto da batida. Contudo, ela praticamente “secou” e, embora continuasse viva, tornou-se praticamente inválida, bem como perdeu sua beleza.



Outra “prova” do amor do casal é demonstrada a seguir, Itou não abandona Tamako e fica ao seu lado enquanto se recupera muito lentamente. Até mesmo abandonou o trabalho de artista para laborar braçalmente. Mas não nos esquecemos da menina que serve como observadora da estória, sua vida continua, quando percebe a situação de Tamako se oferece para trabalhar para ajudar nas despesas. Itou, enganando ela avisa um conhecido para que a denunciasse como uma garota fugitiva. Após decorrido um tempo ela visita o casal e se depara com a lenta recuperação de Tamako.

Um ponto bastante relevante que possa se chamar de sobrenatural seria a questão da magia da “pintura”. Itou comentou que estava pintando um retrato de Tamako, mas não poderia mostrar antes de finalizar, pois a magia se perderia.

Por coincidência a protagonista descobre e espia o quadro e a magia teria se “dissipado”. Logo depois acontece o acidente trágico, onde podemos fazer uma analogia na qual a areia (que seria a “magia” de Tamako) se perdeu para salvar Itou.

Pra finalizar, outra questão interessante é que como hobby na escola nossa protagonista passou a trabalhar com artesanato em vidro, até mesmo Itou se surpreendeu com isso. A ligação mais óbvia seria por causa da “areia” visto o vidro ser composto por ela e como uma espécie de homenagem ao casal de amigos que a acolheu resolveu trabalhar em algo no qual a areia é modelada para produzir arte, assim como a união do casal, o artista e mulher que “solta” areia ambos são frágeis mas interessantes..

Boa história, num ritmo mais lento que as demais, perfeita para contrastar com a ação da anterior, conseguindo causar uma boa impressão no leitor que calmamente se deixa levar pelo enredo da estória, que embora curta é muito rica.

LE PAIN ET LE CHAT



Nesta estória ambientada aparentemente numa grande cidade nos é contada a estória de dois personagens, uma menina “delinquente” que vive sozinha e rouba, furta e extorque para viver, até mesmo usa uma faca em seus delitos, e um padeiro que possui uma respeitável padaria, mas que questiona a si mesmo se fazer pães é o que ele queria para sua vida.

A saga de ambos se cruzam quando a menina tenta furtar pães da padaria do protagonista e acaba sendo pega em flagrante, o padeiro a persegue e a segura, ela insistiu que ele não chamasse a polícia e ele resolve ajudá-la levando pães para ela dando origem a uma curiosa relação.

Ocorre que os pais da menina abandonaram a menina da casa em que moravam, a deixando sozinha, sendo que vivia de roubar e furtar para se alimentar e manter o imóvel, pois sabia que caso a polícia tomasse ciência do ocorrido ela não poderia continuar na casa enquanto esperava numa cega esperança o retorno de seus pais.



Mas, o que movimenta a estória é outro personagem, um pequeno personagem, um gatinho cego de um olho que a menina cuida como se nada mais importasse. Daí o título da estória, Le Pain et le Chat significa o pão e o gato em francês, em clara alusão aos personagens da trama.

Entretanto, ao ver sérios ferimentos na mão da menina e o fato dela passar mal com uma alta febre, ao leva-la no médico acaba descobrindo que ela possuía uma série alergia a gatos. Sendo a única solução o afastamento de ambos.

Contudo, o afastamento não é uma opção para a menina, ao ser abandonada pelos pais e ter encontrado o pequeno gatinho ela transferiu todo o seu senso de responsabilidade aos cuidados do bichano em virtude da atitude totalmente oposta dos seus pais, e, ao repudiar tal ação nunca poderia fazer o mesmo com seu novo amigo.



Percebe-se que cada uma das estórias desta coletânea gira em situação nas quais são apresentados dilemas morais, neste caso é o dever de responsabilidade que dita as regras. Tal como a situação do padeiro, que diante das responsabilidades com fornecedores, impostas e etc., mesmo querendo não consegue abandonar o ofício de padeiro.

Diante deste dilema em atender o desejo da menina ou simplesmente afastá-la do gato ou chamar as autoridades ele resolve contornar a situação oferecendo um par de luvas e uma máscara de gás para a menina manusear o pequeno mascote sem ter que tocá-lo, visto ter contraído mais uma responsabilidade em relação à menina.

E vocês devem estar se perguntando, há algo de sobrenatural nesta estória? Bem, não necessariamente, depende do ponto de vista, pode ser uma representação alegórica, um sonho ou realmente algo mágico.



O padeiro literalmente “entrou” nos olhos da garota e se viu diante de suas memórias, um monstro em forma de caranguejo que bradava: “Você é uma criança barulhenta!”, provavelmente se trata de uma alegoria com os pais que a abandonaram e provavelmente a tratavam mal.

De um momento para outro ele se transporta para os próprios sonhos e começa a devagar sobre como fazer um bom pão. Boa parte da insatisfação do protagonista sobre a profissão de padeiro que escolheu para exercer diz respeito ao fato de nunca ter conseguido fazer um pão maravilhosamente saboroso que comeu em um workshop de panificação. Resumidamente, ele queria fazer um pão que tocasse o seu coração, e o fracasso era mortificante.



Por fim, dentro desta dimensão onírica, ele retoma a atenção em relação à menina viu ela se afastando e se despedindo e então acaba acordando em sua padaria. Seria sonho, alucinação ou seria uma alegoria do que descobriu ao conviver com a garota? Impossível saber ao certo. Mas, querendo tirar a prova e vai até a casa da menina e se depara com os assistentes sociais e acaba sendo informado que a garota realmente fugiu.

Ambos não voltam a se encontrar, mas, de alguma forma tal relacionamento serviu para o nosso padeiro querer renovar sua produção de pães desde o primeiro passo, buscando aquela paixão que não encontrava na panificação. Mas o que motivou essa retomada de seu desejo?

Talvez a devoção da garota em não abandonar o pobre gatinho mesmo enfrentando difíceis provações tenha exercido uma influência profunda na mentalidade do padeiro, sendo esse sentimento o que faltava para produzir um pão que atendesse suas expectativas, visto que sua técnica já era perfeita e apenas faltava “paixão” pela coisa. Por acaso não dizem que os sentimentos afetam o sabor dos alimentos?



E quanto a garota? Apenas seguiu seu rumo com seu gatinho, dando a sensação de continuidade. O que dá pra perceber é que naturalmente ela não abandonou seu objetivo em proteger e ficar com o gato. O destaque no final fica para o fato dela estar atravessando a cidade com uma máscara de gás, o que, a princípio possa parecer cômica acaba por lhe salvar a vida!

E termina magistralmente com um close no olho cego do gato que toma forma de uma lua. Ah, já ia esquecendo um dos momentos mais bizarros, eu nem ia comentar sobre isso, mas, foi aprender que se deve estimular a bunda do gato pra ele defecar.

STILL WINTER



Para finalizar, retornamos ao ambiente de montanha, onde dela se propaga todo o repertório místico desta pequena estória, que por sinal foi uma das primeiras produzidas pelo Daisuke Igarashi, nunca publicada antes.

Still Winter, mais que um simples conto, é uma alegoria da transição das estações, onde a morte representada pelo inverno produz as sementes necessárias para fazer florescer uma exuberante primavera. Nesta estória o autor se baseou no folclore japonês de uma maneira um tanto terrificante para criar esta alegoria.


Em resumo é a estória de um menino que nutria um grande interesse por uma montanha e que na sua infância perguntou se podia escalá-la, mas este respondeu que ela pertencia a Deus e nenhum mortal deveria subir nela. Novamente vemos a motivação de uma “divindade da montanha” que pune terrivelmente os invasores, talvez uma alegoria com os próprios perigos da montanha, como deslizamentos, quedas, etc. Que conferem um ar terrível e perigoso à esta formação do relevo. Além de que quanto mais alto, mas perto estaria da “morada” dos deuses.

Contudo, o menino cresceu e resolveu escalar a montanha. Aqui temos mais uma alegoria do que qualquer outra coisa, ele provavelmente não obteve sucesso em seu intento como alpinista e acabou sofrendo na neve gelada e passou a alucinar. Começou a observar uma grande variedade de animais míticos e soube por eles que sua vida seria levada pelo “Rei do Inverno” o “que devora tudo”, provavelmente uma alegoria de que o inverno na montanha tiraria sua vida.



Contudo, o mais curioso é que sua essência permaneceria viva sendo consumida por Saohime (deusa da primavera), contrastando com o inverno (figura masculina severa) é uma bela mulher, rodeada de espíritos que são seus servos. No que consistiria pegar a essência do protagonista?  Essa essência seria absorvida por meio do sexo.

O sexo é a representação da reprodução e renascimento da primavera, detalhe para a cena de sexo entre os personagens, originalmente o autor tinha desenhado os órgãos sexuais como de humanos normais, mas foi “censurado” por causa disso e criou uma representação de como ambos os corpos estariam ligados por folhas, raízes e vinhas, o que, em minha opinião combina melhor com o contexto.



Aqui temos mais uma vertente da metáfora da transição do inverno para a primavera, para a primavera surgir com o crescimento das vegetações se faz necessária a reprodução das plantas que restaram a fim de se espalharem pelo ambiente e estas plantas necessitam de “adubo”, matéria orgânica nutritiva para crescerem bem, e digamos, um corpo humano poderia fornecer um pouco dessa energia para a vegetação.

Outra metáfora interessante, bem, não seria outra metáfora, mas a continuação da mesma, de transição do inverno para a primavera. Cada vez que Saohime pega uma essência ela deixa um ovo dentro do rei do inverno que quando eclodem, as crianças da primavera devoram o rei do inverno.



Difícil escolher qual a melhor estória da coletânea, mas devo dizer que esta pequena estória me marcou positivamente, a vivacidade da grande alegoria que o Daisuke Igarashi criou demonstra uma grande capacidade em reinterpretar de sua maneira os acontecimentos naturais de uma forma “mística” adequada aos arquétipos folclóricos japoneses.


BÔNUS

Ao final do mangá Daisuke Igarashi apresenta algo muito curiosa, uma página dupla na qual ele expõe comentários das obras apresentadas nesta coletânea analisadas do ponto de vista dos alimentos! As estórias do ponto de vista das comidas.Embora se esperasse em seus comentários que falaria algo “sobrenatural” trata do ponto de vista da comida, mas afinal, a comida tem importância cultural e mística, sendo um dos pilares de uma civilização. Também, com isso, é possível ver o interesse do autor pela culinária, o que já pôde ser visto em Little Forest.




Enfim, chegando ao final de minha análise, devo declarar que a presente obra é mais que recomendada, indicada a todos àqueles que apreciam obras diferentes do habitual e que abordam o sobrenatural de forma não convencional. E por ser um mangá curto não se levará muito tempo para lê-lo, sendo uma boa pedida para quando você estiver estressado e precisar de algo interessante para ler e relaxar. Até a próxima pessoal.


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