sábado, 2 de abril de 2016

Kabocha no Bouken. A Vida de uma Gata.



A vida diária de uma gata e o seu dono em uma série de eventos do cotidiano. Como Daisuke Igarashi conseguiu transformar uma premissa tão simples em uma singela obra de arte. Seria o retrato do espírito japonês que encontra o sublime no cotidiano? Isto é Kabocha no Bouken, uma história perfeita para os amantes dos gatos e para aqueles que apreciam qualquer boa obra.

Kabocha no Bouken, Kabocha's Adventures em inglês, também chamado de The Adventures of Kabocha ou Punpkin's Adventure, é um mangá lançado em volume único, composto por 17 capítulos, publicado na revista "Animal Paradise", da editora Takeshobo, em julho de 2007. O volume é menor que um volume comum de mangá, possui um pouco mais de 100 páginas.



Como visto, Kabocha no Bouken é um mangá de autoria do mangaká Daisuke Igarashi, um velho conhecido do blog, que apareceu aqui desde meados de 2013, sendo que já falei sobre a maioria de suas obras, como Witches e Little Florest. Como eu sempre repito ele é um artista pelo qual eu nutro um sincero apreço pela qualidade de seu trabalho. Embora ele não tenha um grande reconhecimento comercial, mesmo já tendo algumas de sua sobras lançadas em inglês, seu trabalho é reconhecido pela crítica especializada.

A obra de Daisuke Igarashi é marcada majoritariamente por temas surrealistas, fantásticos e espirituais, quase sempre baseados no folclore japonês e, em certa parte, no folclore mundial como um todo. É muito inspirado no folclore do "interior", da vida campesina, do folclore dos agricultores, os quais são os menos influenciados pelo modo de vida materialista dos grandes centros. As vezes Daisuke Igarashi foge dos aspectos fantásticos usuais de sua obra, focando principalmente em algumas de suas paixões, a culinária, a agricultura e a vida no campo.




Tal tipo de abordagem "slice-of-life" do campo, semelhante a um diário, já rendeu bons frutos para Daisuke Igarashi. Sua obra Little Forest, que narra o cotidiano no campo da protagonista Ichiko juntamente com diversas receitas da culinária japonesa, virou dois filmes. Kabocha no Bouken é bastante semelhante a Little Forest, embora foque, é claro, na relação da gata e seu dono, ficando a agricultura e a vida no campo como pano de fundo para os dois protagonistas.

Kabocha no Bouken em síntese narra eventos cotidianos, não em ordem cronológica, da vida da gata Kabocha (abóbora em japonês) e seu dono, o qual não é nomeado na história, ressaltando que o foco é realmente na gata. Tais eventos passam desde o momento da adoção de Kabocha, uma filhote, encontrada miando fora de sua casa, ainda quando moravam na cidade grande, até seu cotidiano no chalé no campo. Os capítulos não são dependentes um do outro, embora alguns eventos repercutam em outros capítulos.

Logo de cara, Daisuke Igarashi dá um presente aos leitores uma série de páginas coloridas, iniciando por um didático e fantástico mapa das aventuras de Kabocha! Marcando no respectivo mapa cada ponto em que se passa cada aventura da gatinha, referenciando também os diversos tipos de animais encontrados nas redondezas e principais pontos de referência. Realmente é algo único e uma bela adição inestimável ao conjunto da obra.



A exposição do conteúdo dos capítulos se dá em forma de monólogos, nos quais o dono da gata narra os acontecimento relevantes que envolvem bichana, realmente como se fosse um diário, escrito como se o protagonista não fosse ele, mas sim gata, Kabocha. Não há interações de outras personagens humanas, todas as falas provém do dono da gata. Esse tipo de exposição do dia a dia do campo também é vista em Little Forest. Este não é um recurso exclusivo de Daisuke Igarashi, pois tal forma de narrativa também foi usada em Sumiyaki Monogatari, mangá de Takeno Shigeyasu, onde é contado o cotidiano de um jovem carvoeiro.

Levanto a suposição que o mangá possui traços autobiográficos, visto que numa parte o dono da gata aparece desenhando o mangá, e Daisuke Igarashi já morou ou pelo menos possui uma casa no campo, e é bem provável que tenha ou teve um gato, pelo grau de veracidade do conteúdo do mangá. Além disso, como já disse antes, não é segredo para ninguém que Daisuke Igarashi nutre uma grande admiração pela vida do campo. Gatos são personagens bastante presentes em sua obra, em Little Forest, por exemplo, há presença de um gato de estimação, embora não tão relevante quanto Kabocha, assim como na curta história intitulada Le Pain et le Chat, uma narrativa fantástica.



Tais eventos cotidianos são majoritariamente sobre as aventuras de Kabocha, as quais são, predominantemente, sobre atividades típicas de um gato comum, como caça aos ratos, brigas com outros gatos por disputa de território, brincadeiras com o dono e até mesmo situações perigosas, já que Kabocha gosta de se aventurar no mato e, de vez em quando, depara-se com bichos perigosos para ela, como raposas, corujas, serpentes, entre outros. Outros capítulos são mais reflexivos, abordando, por exemplo, momentos de desenvolvimento de Kabocha, como quando o dono molhava a ponta de uma toalha no leite para alimenta-la, quando ela era ainda uma filhotinha em tenra idade, ou ainda uma investigação sobre a língua dos gatos.

Outros capítulos são bem humorados, mostrando de uma maneira espetacular uma série de eventos um tanto desagradáveis que quase todo dono de gato já passou na vida. Como quando o gato destrói algum trabalho seu, ou faz uma grande bagunça enquanto pula e salta por aí. Ou ainda quando você tenta salvar um passarinho das presas do seu gato, e, as vezes, é o gato que leva a melhor.  Quando você coloca comida para seu gato e aparece outros gatos da vizinhança para comer sua ração. Ou, ainda, demonstração de coragem ao enfrentar animais maiores e mais perigosos, bem como outros gatos. Além do velho costume de trazer todo bicho que caça para dentro de casa.





Um dos pontos altos do mangá são os divertidíssimos embates entre o dono e Kabocha, momento em que ocorre um duelo de vontades. Todo mundo sabe que gatos são muito temperamentais e que decidem em quem confiar, além de serem extremamente autênticos, sempre mostrando claramente suas vontades, muitas vezes irredutíveis, e alguns os veem como arrogantes. Embora o gato seja um animal muito leal para aqueles que conseguem conquistar sua confiança.

Pois bem, no mangá, Kaboucha adora subir no telhado e esperar que o dono a venha resgatar para lhe dar atenção (já tive um gato que fazia algo semelhante). Então, o dono ia por até cinco ou seis vezes por dia buscar Kabocha no telhado. Inconformado com a situação tentou várias vezes ignorá-la, para fazê-la desistir do seu intuito, mas, como disse anteriormente, enfrentar a vontade de um gato não é uma tarefa fácil, somente os mais persistentes conseguem ser bem sucedidos na missão.




Entretanto, o pior inimigo de um gato é um outro gato. Na história, o dono fez um ótimo trabalho para auxiliar Kabocha a ter mais autoconfiança como uma felina, a fim de enfrentar os gatos que invadiam seu território. Visto que Kabocha não foi criada com outros gatos, sua convivência com eles é problemática, sendo que somente quando foi morar no campo pôde se desenvolver como uma verdadeira felina.

Caros leitores, até o momento vocês devem ter percebido, mesmo sem ler a obra o seu contexto geral, o cotidiano de uma gata, um tema comum, numa abordagem simples, sem nenhuma reviravolta, sem cenas eletrizantes de ação (embora Kabocha tenha os seus momentos de luta com outros animais), e nenhum contexto romântico, apena o amor do dono por seu bicho de estimação. Mas o que faz Kabocha no Bouken tão especial que mereça a nossa consideração?




Justamente a maneira na qual a história é contada, a veracidade da narrativa, o sentimento empregado. Se alguém simplesmente contasse a história, eu não poderia duvidar que se tratasse de acontecimentos reais! A maneira fluída e sem pressa na qual os capítulos se sucedem fazem deste singelo mangá uma obra única de arte, pois cumpriu seu objetivo: contar a história de uma gata e seu dono, e nisto o autor foi muito bem sucedido.




Quantos aos aspectos gráficos do mangá, posso dizer que é mais um exemplo do traço característico de Daisuke Igarashi, o qual emprega traços fluídos, rabiscados, sem muita definição na maior parte do tempo, mas riquíssimos de detalhes quando necessário. Sua arte condiz com a proposta de suas histórias: tornar o fantástico e o sublime apreciável no cotidiano. Quanto às suas cores, sempre são de uma paleta suave, de traços fluídos, até mesmo um tanto aquarelados, não temendo borrões que acentuem a sensação de fluidez. Como sempre, este é o aspecto mais controverso de sua obra, já que foge dos lugares comuns da arte dos mangás.

Assim, finalizo esta postagem com esta recomendação muito especial, perfeita para aqueles que apreciam gatos, mas também para aqueles que nutrem respeito e admiração por qualquer animal. Além de ser recomendado para todos aqueles que simplesmente apreciam uma história bem contada, simples, divertida e suave.

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