quinta-feira, 2 de junho de 2016

Machina. Quanto uma máquina pode ser humana.



Uma cativante história de amizade entre pessoas e máquinas. Onde começa a humanidade e onde termina? Um robô é capaz de ter emoções, ou apenas simulá-las? É possível amar verdadeiramente uma máquina? Esses e outros questionamentos típicos de histórias de ficção científica são retratados de uma maneira delicada neste curioso one-shot.

O mangá da vez a dar as caras no Dissidência Pop se chama Machina, uma óbvia referência à palavra machine, máquina em inglês. Machina é um mangá de um único volume, de autoria de um artista que atende pela alcunha de Murai. Não é um autor muito conhecido, há poucas informações sobre ele. Além de Machina possui outros dois mangás publicados. Machina foi serializado de janeiro a setembro de 2014, na revista online Web Ikipara Comic, com 10 capítulos.



A sinopse de Machina parece bastante simples, um garoto chamado Wakaba encontra por acaso, na beira de um rio, um estranho robô chamado Lloyd e uma menina chamado Chao. Curioso, Wakaba tenta tocar no estranho robô, quando é repreendido por Chao, que afirma que seu amigo robô, Lloyd, ainda precisa de reparos. Um primeiro encontro nada amistoso. Entretanto, logo mais, na escola, Wakaba descobre que Chao é uma aluna transferida.

Wakaba fica bastante surpreso, ainda mais quando descobre que Lloyd foi para a escola escondido, e quando é descoberto causa um tumulto na sala de aula, e é apreendido como se fosse um brinquedo. Resolvido essa confusão, Wakaba passa a desenvolver uma amizade com Chao, em especial por ela ter arrumado um relógio de valor sentimental dele, revelando uma mensagem secreta de seus pais. A partir deste ponto a história se desenvolve um pouco.



Destaca-se que Chao é muitíssimo esperta. Possui uma habilidade de mestre em consertar qualquer tipo de objeto mecânico, desde brinquedos a máquinas fotográficos antigas. Ela usa esse conhecimento para tentar ajudar Lloyd a se tornar completo, buscando todas as suas engrenagens perdidas espalhadas na cidade, principalmente no leito do rio.

Wakaba descobre que o objetivo de Chao era terminar de arrumar Lloyd, que aparentemente está incompleto. Necessitando coletar engrenagens específicas dele perdidas pela cidade. Diante desta premissa se desenvolve uma curiosa história de amizade. Ao longo da narração se reúnem ao elenco principal uma série de personagens curiosos, alguns bastante insanos. Todos reunidos por intermédio de Lloyd.


Quase todo mundo considerava Lloyd apenas uma máquina boba. Inicialmente, apenas Chao reconhecia o valor dele, até outros personagens também perceberem que ele era mais que apenas uma máquina. O mundo onde se passa o mangá não é diferente nosso, apenas Lloyd parecia ter algo mais, algo semelhante à vida. Mesmo sem poder falar, Lloyd sempre era uma mão amiga, sentindo quando algum amigo precisava de sua ajuda. Além de ser muito bem humorado, era mais que uma simples máquina.

Chao possui um passado obscuro, perdeu sua mãe num evento relacionado ao Lloyd, por isso seu pai vê o simpático robozinho com aversão. Entretanto, Chao considera Lloyd um verdadeiro ser vivo, pois claramente possui sentimentos. Uma das discussões da obra é inclusive a capacidade de "sentir" o coração das máquinas, percebendo como elas funcionam com apenas alguns toques. Também a capacidade de reconhecer o valor simbólico de alguns utensílios, como uma máquina fotográfica importante para alguém, visto ter tirado uma infinidade de fotografias importantes para o passado de deste alguém.



Embora a abordagem do mangá possa parecer um tanto superficial e até infantil, esse gênero de discussão sobre a capacidade de robôs sentirem empatia é típica de obras de ficção científica, como o clássico livro de Philip K. Dick, "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?". Este livro, que inspirou o filme Blade Runner, é o marco sobre a discussão do que é humanidade; se um robô pode se passar como humano, reproduzindo seus sentimentos, ou se apenas pode imitar, mas não se igualar aos sentimentos humanos.

Há também a discussão sobre a possibilidade, ou não, de se chamar uma máquina de ser vivo, caso ela expresse seu desejo de sobreviver e evitar sua destruição, ou até mesmo tentando se reproduzir, uma característica típica dos seres vivos.

Machina, é um singelo mangá que aborda esses questionamentos típicos das obras de ficção científica que envolvem robôs. Entretanto, Machina possui até mesmo algo de sobrenatural, pois não há uma explicação científica para o funcionamento de Lloyd, que é apenas um emaranhado de engrenagens.




Verifico que o mais importante da obra não é a discussão se Lloyd é um ser vivo ou não, pois isto já é aceito por Chao e seus amigos, sendo o que importa no contexto da obra. Mas sim a capacidade de Lloyd estreitar os traços humanos, ele acaba ajudando todos em sua volta, mesmo que de maneira aparentemente não intencional e um tanto atrapalhada. Claramente suas intenções são as melhores.

Entre os personagens estranhos que aparecem na trama, destaca-se a professora Miki, que demonstra uma bizarra atração por Lloyd, querendo desmontá-lo a todo custo, descobrindo o que faz aquele robozinho simpático funcionar. Realmente doentio, protagonizando algumas perseguições sérias e hilárias. Mas nada é por acaso, Lloyd consegue sair de todas as enrascadas, pois é um robô verdadeiramente especial.



Outro personagem de destaque é uma menina Eri, que, inicialmente, é uma espécie de vilã, tentando inclusive destruir Lloyd, não dando importância a nada além do dela mesma. Típica menina mimada e egoísta, não consegue entender o verdadeiro valor tanto das pessoas como das coisas. Entretanto, ao conviver forçadamente com Chao e Lloyd consegue ter uma visão mais "humana" do mundo, deixando de ser tão egoísta.

Isto mostra o fantástico sobre o mangá Machina, onde uma máquina pode propiciar tantos sentimentos e momentos totalmente emocionais. Enquanto seres humanos podem agir mecanicamente com uma total ausência de sentimentos, de "coração". Como quando Eri é repreendida pela sua professora de piano por tocar com perfeição técnica, mas ausente de emoção.


Quanto à arte do mangá, necessita umas considerações especiais. O traço de Mirai não é habitual, sendo bastante pessoal. É um tanto Cartunesco, com seus personagens de cabeças grandes e corpos diminutos. Mesmo assim, a arte é detalhada e bonita, as expressões faciais e os pormenores do ambiente são bem feitos, para quem gosta de um mangá com um design diferente.

A história de Machina se desenvolve bem. Entretanto, no seu único volume alguns questionamentos ficam em aberto. Nada que atrapalhe o andamento da obra, mesmo se tratando de algo relevante para o mangá, como os detalhes do mistério que cerca Lloyd. O mangá deu uma suposta solução para o caso, colocando aspectos que podem até mesmo serem considerados sobrenaturais.

Machina, portanto, é uma boa pedida. Uma leitura leve para aqueles que apreciam uma ficção científica. E por ser uma obra curta, é um entretenimento para qualquer hora. Também é de se destacar a arte "mecânica" do mangá, como as engrenagens e máquinas, em especial Lloyd, o que confere um "ar" steampunk à obra.

Assim, fica por aqui está análise, espero que tenham gostado. Até a próxima.


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