terça-feira, 26 de julho de 2016

Black Magic M-66. A entrada de Masamune Shirow no mundo dos animes



Muitos devem conhecer Masamune Shirow por ser o criador de Ghost in the Shell, não sem razão, por ser uma das franquias mais bem sucedidas da história dos animes e mangás. Mas nem só de Ghost in the Shell viveu Masamune Shirow. Na postagem de hoje eu tenho o prazer de apresentar a primeira aventura dele no universo da animação, o OVA Black Magic M-66.


Black Magic M-66 é um OVA de 48 minutos, dirigido por Masamune Shirow, derivado diretamente de seu primeiro mangá, de mesmo nome, de 1983. Shirow é um profissional bastante versátil, pois é o diretor da maioria das adaptações feitas a partir dos seus mangás. Para constar, Shirow não trabalhou sozinho na direção, o OVA foi codirigido por Hiroyuki Kitakubo (Golden Boy, Blood: The Last Vampire).



Black Magic M-66 é a estreia de Shirow no mundo da animação, e consequentemente, de sua longa série de sucessos de ficção científica ambientadas em universos cyberpunks repletos de robôs e androides, que lhe conferiram sucesso mundial, como Ghost in the Shell, Apleseed e Dominion. Este OVA é obra de um Masamune Shirow novo, na casa dos vinte anos, ainda aperfeiçoando o estilo que o consagraria.

O enredo é uma mistura dos filme Predador e Exterminador do Futuro. Tudo começa quando uma nave de carga sofre um acidente misterioso e cai em uma floresta. Seria um acidente normal se dentro do veículo militar não houvesse uma carga perigosa, dois androides de batalha M-66 desprogramados. O exército descobre o ocorrido e vai atrás dos androides, os quais aparentemente se soltaram de suas caixas e estavam soltos por ai, matando quem encontrassem.



Nesse meio termo somos apresentados à protagonista, Sybel, uma jornalista freelancer em busca da matéria de sua vida. Hackeando informações do governo, acaba descobrindo sobre o acidente e parte imediatamente, junto com outro repórter, até a área do acidente. Ela acaba se envolvendo no meio de uma luta mortal entre as forças militares e os dois androides. 

O mais curioso e um tanto inacreditável, é que os androides estão obedecendo um comando utilizado ainda na fase de testes, de perseguir e eliminar um alvo em específico, e esse alvo específico é justamente a neta do cientista criador dos robôs! Não me perguntem quem em sã consciência coloca como alvo, mesmo na fase de testes, a neta como teste de um robô letal. Somente um dos androides escapa do exército e vai em direção de seu alvo, a jovem Ferris, e tanto as forças militares como Sybel partem em uma perseguição com o objetivo de salvar a garota.



Será que Black Magic M-66, um OVA de 48 minutos, conseguiu ser uma história de ficção científica eficiente? Claro que o visual é um pouco datado, visto o OVA datar de 1987, mas mesmo assim a animação é de qualidade para os padrões da época. Só estranhei um pouco as cenas de luta, a coreografia das androides é um pouco esquisita, mas nada que atrapalhe qualquer coisa.

Em suma, é uma história de perseguição, onde humanos são perseguidos por um robô letal, o qual não possui outro objetivo se não eliminar o seu alvo. A referência com Exterminador do Futuro, de 1984, é a primeira coisa que vem à cabeça quando se pensa neste tipo de trabalho. Black Magic M-66, sem dúvidas, protagonizou uma das mais interessantes e frenéticas perseguições da história dos animes, sem deixar dever em nada em relação ao Exterminado do Futuro!



Quanto aos personagens, em 48 minutos fica muito difícil se aprofundar em qualquer personagem que seja, mas mesmo assim, mesmo superficialmente, os personagens mostraram para o que vieram. Sybel, a destemida jornalista, perfeita para protagonizar uma história na qual tem que enfrentar um robô assassino. Ferris é a típica garota mimada que precisa ser protegida, sendo outro elemento bastante comum neste tipo de obra. Quanto às androides? Bem, elas não possuem personalidade, são apenas robôs que seguem o seu objetivo cegamente, eliminar um alvo específico.

Embora possuam traços humanoides, suas feições são claramente de uma máquina, além de não falarem nem mostrar qualquer expressão facial. O interessante é que mesmo possuindo uma grande agilidade na hora de lutar, na hora da perseguição (aqui me refiro apenas a segunda androide, a qual conseguiu fugir da selva) é notavelmente desengonçada, aparentando, talvez, algum defeito. E sabemos que quando o perseguidor é um pouco lento, como um zumbi, a carga de tensão aumenta consideravelmente. É, portanto, uma antagonista eficiente, embora de poucas (ou nenhuma) palavra.



Como conceito, essas androides de batalha, digo essas, pois ambas possuem mulheres como modelo, são bastante interessantes. Possuem uma capacidade de lutar singular, uma força sem comparativos, além de armas especiais, como laser dos olhos. O mais interessante é quando são derrotadas, para não serem capturadas pelos inimigos, elas liberam uma saraivada para todas as direções de projéteis em alta velocidade, além de, como último recurso, liberar um gás corrosivo.

Em certos momentos, a perseguição das androides de batalha pelas forças militares especiais me lembrou outras perseguições icônicas da história, sejam de animes como de filmes. Por exemplo, Elfen Lied, a primeira referência que veio à cabeça quando eu vi os soldados apanhando e sendo exterminados como fossem de papelão. Além claro de filmes clássicos, como Exterminador do Futuro e Predador.



Há ainda outros coadjuvantes de destaque, por ser uma obra curta, não há muitos personagens, mas posso destacar o major, o chefe das forças militares, frio e calculista, sendo que seus homens obedecem suas ordens sem pestanejar. Mesmo passando trabalho para capturar ou destruir os inimigos cibernéticos, fez um trabalho eficiente.

Black Magic M-66 ainda nos brinda com um easter-egg bem curioso, o qual não influencia o enredo. No final do OVA é possível ver a protagonista Sybel com uma camisa, e na respectiva camisa está escrito Apleseed, que é nome de uma das obras de maior sucesso de Masamune Shirow, rendendo diversos filmes e OVAs. Entretanto, na época do OVA de Black Magic M-66 (1987) apenas o mangá de Apleseed estava sendo publicado, apenas em 1988 seria lançado o primeiro OVA da franquia Apleseed.



O roteiro é bastante simples, um androide desgovernado que vai atrás do seu alvo, ponto final. Entretanto, essa simplicidade não é algo negativo, pois, para uma obra de 48 minutos, é preferível um enredo previsível e bem construído do que algo complexo e cheia de furos. Black Magic M-66 é favorecido pela simplicidade.

Como é sabido, Masamune Shirow sempre abordou a questão da inteligência artificial em suas obras, em Black Magic M-66 as coisas não foram diferentes. Mas, diversamente dos conceitos de robôs e ciborgues apresentados em obras como Ghost in the Shell, onde a carga psicológica e existencial da cibernética é levada ao extremo da profundidade, Black Magic M-66 nos mostra um conceito de robô mais clássico, como uma máquina destituída de emoções a qual pode ser programada para destruir, apenas um autômato seguindo ordens.




Há coisas que me incomodaram um pouco em Black Magic M-66, como o humor em algumas partes. Não sou contra colocar alívios cômicos em obras sérias, mas no presente caso, ficou um elemento estranho, destoando do clima sério que o OVA tenta impor. Principalmente o professor Matthew, o criador dos androides, além de vô da Ferris. Seus trejeitos são muito desengonçados, além de sua própria aparência cômica, com a espiral nos óculos, tentando passar a imagem de um cientista maluco, realmente um elemento estranho na trama.

Em relação aos aspectos gráficos, a animação é bastante fluida dentro das capacidades da década de 80, não chega a ser anda de outro mundo, mas agrada quem assistir sem maiores receios. somente as cenas de luta eu achei um pouco estranhas, no sentido da coreografia ter ficado um pouco esquisita, mas nada que atrapalhe o bom andamento, já que a animação é bastante boa.



Quanto a trilha sonora, mesmo ela não sendo nada memorável, casou perfeitamente com o OVA, com sua batida eletrônica típica de filmes de ficção científica, e lembra, para quem conseguir se recordar, da trilha sonora do filme O Exterminador do Futuro, mais uma semelhança entre as duas obras. Notadamente a trilha sonora fez o seu encaixe perfeito nas cenas de perseguição e tensão, o ambiente aterrador antes do ataque dos androides ficou muito bem trabalhado.

Em suma, Black Magic M-66 foi um bom começo de carreira para Masamune Shirow, servindo como meio de aperfeiçoar sua técnica como diretor no mundo da animação. A obra difere das outras do mesmo autor/diretor, mesmo possuindo o mesmo pano de fundo, a robótica. Em Black Magic M-66 o roteiro é simples e a questão da cibernética é abordada de forma crua, onde há um robô destituído de vontade própria e emoções perseguindo sua vítima, bem no estilo O Exterminador do futuro. Entretanto, tal artifício foi uma escolha eficiente para um OVA curto de apenas 48 minutos.



Este OVA é recomendado para todos aqueles que possuem um gosto especial pela ficção científica, e para aqueles que querem conhecer Masamune Shirow além de Ghost in the Shell, ou, ainda, para todos aqueles que apreciam uma história interessante que lembra clássicos como O Exterminados do Futuro. O OVA pode parecer datado, mas a animação é de primeira qualidade para a época, não prejudicando em nada o contexto geral da obra.

Assim finalizo mais esta postagem, espero que apreciem o texto e não deixem de comentar.


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