quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Coo no Sekai. A tênue linha entre o sonho e a realidade.


Hoje eu vou escrever sobre um mangá bastante interessante, e já de cara ressalto que o trocadilho com o nome do mangá não pode ser usado para depreciar a obra, certo? Coo no Sekai, ou Coo's World é uma viajem fantástica pelo mundo dos sonhos de uma garota de 12 anos para entender o motivo dela encontrar o irmão falecido toda vez que começa a sonhar.

Coo no Sekai é um mangá de autoria de Hideji Oda. Já fazia algum tempo que eu procurava algo para ler desse autor que parecia ter uns títulos bem interessantes, tanto o seu traço como as sinopses dos seus mangás eram fascinantes. Entretanto, a maioria de suas obras não possui nenhuma de tradução para alguma língua que eu consiga ler, Coo no Sekai é uma boa exceção.


Para quem não conhece o autor, uma das obras de Hideji Oda foi adaptada para as TVs com uma considerável popularidade, Miyori no Mori, ou Miyori's Florest, em 2007. Hideji Oda ainda participa do grupo La Nouvelle Manga, um movimento que reúne estudos e cooperações entre autores japoneses, franceses e belgas, outro membro de destaque que participou deste movimento foi Daisuke Igarashi.

Voltando para Coo no Sekai, o mangá é composto por dois volumes e nove capítulos, sendo publicado na revista Afternoon (lar de mangás famosos como Mushishi, Vinland Saga e Parasyte) de novembro de 1999 até novembro de 2000. Coo no Sekai ainda ganhou uma continuação em um volume único em 2006, chamada Yume no Akichi, ou Path of Dreams.



Agora, dando uma sinopse mais detalhada do mangá, este se trata da saga da jovem Renei Hayashi, uma menina comum de 12 anos prestes a entrar no colegial. Como toda garota de sua idade, Renei passa a ter uma série de questionamentos sobre o seu futuro, expondo todas as típicas inseguranças deste período da vida, especialmente a sua adaptação no colégio.

Além de todos os problemas de uma criança comum, Renei possui um agravante, faz apenas um ano que seu irmão mais velho morreu em um trágico acidente de carro. Esse irmão, dez anos mais velho do que ela, agia como um verdadeiro pai, já que o pai deles já havia morrido há muitos anos. Ambos eram muito apegados. Em virtude disto, Renei entra em um estado de profunda melancolia, apenas agravando todos os problemas existenciais que uma garota pré-adolescente já possui.



Nesse contexto desastroso, em uma noite específica, antes de se deitar, Renei deseja ver seu irmão mais uma vez. A força desse desejo acarretou um evento bem peculiar. Quando Renei acordou ela não estava em sua casa, mas em um mundo totalmente diferente, extremamente bizarro. Neste mundo havia todos os tipos de seres esquisitos e não respeitava as leis elementares da física. Por exemplo, neste mundo a lua é um anel.

Mas a estranheza desse mundo não é o mais importante, o elemento que ninguém poderia esperar é que ela reencontraria com o irmão nesse mundo diverso! Entretanto, seu irmão não a reconhece, chamando a si mesmo de Coo (por isso esse mundo é chamado de Mundo de Coo). Além disso, sua personalidade é totalmente diversa da conhecida por Renei enquanto ele estava vivo. No mundo de Coo, ele é egoísta, grosseiro e preguiçoso.


Ela é levada até um vilarejo e é tratada como uma menina perdida. Renei então conhece outros personagens em Coo e acaba formando um pequeno grupo que parte em busca de encontrar a sua casa (a Renei do sonho não sabe que está sonhando), dentre esses personagens está um garoto careca que ela conhece no mundo real, mas com outro nome, pelo menos ele mantém a sua personalidade gentil e dedicada, além do Rei, uma caricatura animada que personifica o conceito de rei.

Quando Renei dormiu no mundo de Coo, ela acabou acordando no seu quarto, e naturalmente, pensou que se tratasse de apenas um sonho. Entretanto, dia após dia, quando Renei dormia, ela acordava no mundo de Coo. Sem sombra de dúvidas, essa situação do "sonho continuado" confundiu Renei. Ela teve, então, de dedicar sua vida a duas tarefas, sobreviver na vida real como uma estudante e buscar uma saída no mundo de Coo.



A história gira principalmente dentro do mundo de Coo, sem menosprezar o que se passa no mundo real, que é extremamente importante para o enredo. O mangá segue uma linha sequencial de eventos, mas segue também o conceito de "histórias dentro de histórias". O mundo de Coo é muito rico em bizarrices e em cada passo da jornada os viajantes são expostos a uma situação diferente que faz com que Renei reflita sobre a sua própria vida.

Por exemplo, há a cidade onde todos levam uma bomba no peito com o objetivo de evitar brigas e animosidades, a ideia dos habitante é que o medo de explodir a cidade faria que todo mundo tratasse bem uns aos outros, mas a realidade mostrou que esse conceito possui suas falhas e a cidade foi pelos ares. Há ainda a história do ser do deserto que alimenta os viajantes com o seu próprio corpo, até desaparecer completamente, uma doação total ao próximo.



O mangá é dividido em dois volumes. Curioso como cada um concentra uma história em si, embora unidos são distintos, o que acentua o caráter aparentemente episódico do mangá. Cada volume trata de um período desse momento vivido por Renei. O primeiro narra a sua primeira visita a Coo e como buscou uma saída, enfrentando vários desafios. Já o segundo, o enredo fica mais nebuloso, Renei passa por outras dificuldades, bem como, nesse ponto, os mistérios são resolvidos (parcialmente).

Rapidamente se percebe que todos esses elementos estranhos presentes no mundo de Coo são metafóricos, tentando passar uma mensagem oculta para Renei, e consequentemente para o leitor. Um sistema de contínuas "fábulas" com suas próprias lições de moral. Percebe-se que Coo, seja sonho, seja alucinação ou realmente seja um mundo sobrenatural, serve como um meio de "aperfeiçoar" Renei e ajudá-la a enfrentar os problemas da sua vida.




O que é o mundo de Coo? É uma pergunta difícil, somente ao longo do segundo volume é possível vislumbrar o real significado daquilo tudo. Todo o tipo de teoria pode ser levantada e consequentemente esse assunto foi alvo de atenção das personagens. Seria tudo apenas um sonho? Como pode um sonho ser contínuo? Ou trata-se de realmente um outro mundo, ou ainda mais específico, o mundo dos mortos, já que o irmão de Renei estava aparentemente morto.

O autor habilmente constrói uma trama que demora para mostrar todos os seus segredos, ao longo dos dois volumes ela vai se tornando cada vez mais complicada. Por vezes somos tentados a pensar que tudo se trata de apenas um sonho, outras, que realmente é algo sobrenatural, por aparecer pessoas que compartilham da experiência do mundo de Coo. Mas ai você pode pensar que são apenas construções do próprio subconsciente da Reinei. Ou quem sabe, é tudo apenas uma alegoria.



O conceito comum de realidade é tão desconstruído diante da abordagem onírica do mangá, que nem o mundo real pode com certeza ser chamado de real. Sempre paira a dúvida, será que o mundo real é realmente o "real". O mundo de Coo poderia simplesmente ser a realidade e a vida que sempre tive apenas um longo sonho. Coo no Sekai é um bem elaborado conto de fadas que trabalha com a simbologia dos sonhos.

Mas não importa o que é o mundo de Coo, esse sistema de simbolismos atua da mesma forma que nossos mitos, os quais se perpetuam pelas eras através de nosso inconsciente coletivo, conforme o entendimento do psicanalista Carl Jung. Esses arquétipos ancestrais podem se manifestar por meio dos sonhos ou outros modos subconscientes, com o objetivo de "testar" o indivíduo, fazendo-o evoluir, um verdadeiro rito de passagem, e é justamente isso que acontece com Renei.


O irmão de Renei morreu de forma repentina, depois de passar muito tempo longe de casa, o relacionamento entre os irmãos ficou "vago", sem uma resolução adequada. Antes de Coo, Renei não entendia o que sentia pelo irmão e o que este sentia por ela. Coo age como um estímulo ao aperfeiçoamento, gerando um autoconhecimento, além do conhecimento de outros, visto que além do irmão Renei encara outras "sombras" de seu passado, como o seu falecido pai.

É curioso notar que as manifestações do mundo de Coo só ocorrem justamente quando Renei passa por momentos difíceis, repletos de incerteza e fortes emoções, este seria o seu estopim. O mundo de Coo é portanto uma metáfora para todos nós, os quais vivenciamos esse período complexo que é a adolescência, onde tivemos que enfrentar uma série de desafios, alguns sendo muito mais bem sucedidos que outros.



O autor utiliza nessa obra não somente criações bizarras oriundas de sua mente, mas um grande arsenal de referências ao folclore japonês, como o rio que separa o mundo dos vivos do mundo do além. Agradeço imensamente ao tradutor que ao final do mangá se deu ao trabalho de fazer um compilado destas referências, muitas das quais eu desconhecia. Confesso que se eu soubesse metade delas eu teria entendi melhor o mangá muito antes do final!

Como é de se esperar em um mangá como esse, nem todos os mistérios são resolvidos no final, embora é possível aprender sobre a essência do mundo de Coo, fica em aberto o motivo de Renei poder acessá-lo da maneira que ela fez, através dos sonhos. Todos os personagens contribuem de alguma forma para a formação de Renei como pessoa, muitas vezes ela é obrigada a encarar as sombras de seu passado (algumas vezes literalmente).



No final das contas, deixando as teorias de lado, é possível afirmar que Coo no Sekai é uma grande alegoria de uma coming of age, mostrando a transição de Renei da infância para a adolescência e consequentemente para as dificuldades da vida adulta utilizando-se de uma espécie de rito de passagem. Esse conceito é bastante trabalhado na psicanálise, o inconsciente cria alegorias para as dificuldades do indivíduo na ausência de um ritual real.

Um dos problemas que eu tive com a leitura deste mangá, foi o método que o autor escolheu para escrever a história, ele deixou todas as lacunas em aberto até quase o final do mangá, quando todas as teorias confluíram para apresentar a síntese da obra, pareceu um tanto corrido. Enquanto isso, o caminho até o clímax, dado o caráter de vai e vem do enredo, pareceu um pouco arrastado, mas nada que atrapalhe muito na construção geral da obra.




A arte é, segundo dizem, um dos pontos mais controvertidos do mangá. Eu especialmente adorei sua arte desde o momento que tive a possibilidade de ler essa obra. A riqueza de detalhes é impecável, prezando por um meio termo entre o realismo e o traço típico dos mangás. Seu traço é bastante carregado e há o uso de bastante sombras e rabiscos, o que usado no momento certo pode conferir um efeito interessante no destaque de um personagem.

Dizem também que o character design é feio. Não realmente feio, mas além da protagonista as outras personagens não seriam esteticamente agradáveis, não sendo uma questão do traço propriamente dita. Não nego que os homens, como o irmão de Renei, não sejam nenhum galã, mas não interfere no conjunto. A arte do mangá é estupenda, as criaturas e as bizarrices do mundo de Coo são muito bem trabalhadas. A paleta de cores terrosas também deu um charme especial ao mangá.



Assim, Coo no Sekai é uma obra especial, conseguiu conjugar as dificuldades de uma jovem garota com uma atmosfera de sonhos que serviu como um aprimoramento pessoal. Por vezes a narrativa central se arrastou um pouco, mas isso foi necessário e compensado pelo brilhante caráter episódico do mundo de Coo, onde todo dia foi um desafio diferente, sendo estas histórias dentro de histórias fantásticos caso você consiga captar o sentido oculto da alegoria.

Concluindo, Coo no Sekai, mesmo tendo uma falha ou outra, é uma obra fantástica e facilmente recomendável. Só alerto para prestarem bastante atenção na leitura para captar todos os seus nuances, afinal, é um mangá bem complexo. É também uma obra perfeita para quem gosta de viajar pelo mundo dos sonhos, onde a linha que separa a realidade da ilusão é tão tênue que nos faz questionar sobre o próprio conceito de realidade.

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