Kaikisen. Embate entre a tradição e a modernidade neste mangá de Satoshi Kon.



Vocês sabiam que Satoshi Kon, além do grande diretor que foi (Perfect Blue, Paprika), também se dedicou um pouco ao ofício de mangaká? Pois sim! E é justamente um de seus empreendimentos no mundo dos quadrinhos que lhes apresento hoje, o mangá Kaikisen, ou Tropic of the Sea, uma aventura que envolve o embate entre modernidade e tradição com uma pitada de sobrenatural.





Kaikisen é um mangá curto (one-shot), composto por um volume e sete capítulos, os primeiros seis capítulos contam a história principal, enquanto o último capítulo é uma pequena história extra (Summer of Tension). Kaikisen foi publicado em 1990 na revista Young Magazine (Weekly), lar de mangás famosos Akira, Chobits e Initial D.

Como havia dito, Kaikisen é um mangá do saudoso Satoshi Kon, que foi um dos maiores diretores de animação do Japão, que infelizmente nos deixou em 24 de agosto de 2010, deixando um legado de grandes sucessos do cinema, como Perfect Blue, Millennium Actress, Tokyo Godfathers e Paprika, e também de animes, como Paranoia Agent. Seus filmes são reconhecidos por brincarem com questões como a realidade e a fantasia, isso sem esquecer a grande complexidade psicológica dos seus personagens e planos de fundo surreais.



Mas e falando de seus mangás publicados? Embora Satoshi Kon não seja lembrado por seus mangás, já que sua especialidade e gosto pessoal era mesmo a animação ele publicou alguns quadrinhos (sobretudo one-shots), quais sejam: Opus (1995-1996), Seraphim: 266613336 Wings (1994-1996), World Apartment Horror (1991) e Yume no Kaseki, publicado em 2011, depois da morte de Satoshi Kon com algumas one-shotss que ainda não haviam sido publicadas.

Também não podemos esquecer de Kaikisen, ou Tropic of the Sea, que é justamente a obra sobre a qual se baseia a presente postagem. Então, mãos à obra! Do que se trata Kaikisen? O enredo pode não ser dos mais originais, mas é uma estória bem construída, o que é um dos parâmetros mais importantes para qualificar uma obra.



Tudo começa com uma longa e estranha tradição, mantida pela família de Yosuke Yashiro por séculos. A cada sessenta anos, eles recebem um ovo de sereia, isso mesmo, um ovo de sereia, para ser cuidado e mantido até que tenha de ser devolvido para o mar. Como é uma família de sacerdotes xintoístas de uma cidadezinha em uma pequena ilha, o ovo fica protegido em um pequeno santuário.

Tudo começou quando o antepassado de Yosuke fez um pacto com uma sereia, em troca de proteção e cuidado aos ovos, a sereia propiciaria um mar rico em peixes e bençãos no sentido de prover sempre um bom tempo e livrar a população das tempestades. Tudo funcionaria na base desta troca de favores. Parecia que nada conseguiria destruir essa ordem estabelecida.



Entretanto, ao longo dos séculos essa tradição se vê prejudicada, pois para alguns, principalmente o pai de Yosuke e atual sacerdote, a história da sereia não passaria de uma mera lenda popular, apenas folclore, sem nenhuma correspondência com a realidade. Além disso, o desenvolvimento comercial e industrial invade massivamente a pequena ilha, e o pai de Yosuke vê tudo isso com bons olhos, já que possui uma personalidade empreendedora, sendo o "mito" da sereia um bom elemento para expandir o turismo da ilha.

Assim, inicia-se um embate de ideais na ilha, enquanto o pai de Yosuke, conjuntamente com um rico industrial que está investindo na ilha, lutam pelo "progresso" do lugar, há uma resistência ferrenha por parte dos moradores, sobretudo dos pescadores tradicionais, que preveem a destruição da atividade pesqueira da região. O vô de Yosuke, e antigo sacerdote, luta por manter as tradições e principalmente manter o acordo feito com a sereia, inclusive furta o ovo para protegê-lo mesmo estando muito doente.



Naturalmente, o maior chamariz do progresso da pequena ilha é o ovo da sereia, e o pai de Yashiro nem pensou duas vezes em abandonar o retorno do ovo para o seu lar, apenas para que o objeto sirva como propulsor do progresso. E o jovem Yosuke, que lado ele toma? Inicialmente nenhum, quando criança ele acreditou muito na lenda, mas está na fase da juventude que não sabe muito bem no que acreditar.

Dentro deste contexto de embate entre as tradições e a modernidade que se passa Kaikisen. Realmente este não é um tema inovador, já foi abordado inúmeras vezes nas mais diversas mídias e maneiras diferentes, mas sempre é um tema pertinente, principalmente se levarmos em conta o atual estado do Planeta Terra, quase não há mais regiões tradicionais, cada vez mais o progresso pelo progresso se expande pelo mundo sem medir as consequências, numa contínua busca por dinheiro.



Kaikisen também não se resume apenas na questão de destruição de comunidades tradicionais, mas também da destruição da própria natureza. Como ocorre no mangá, a manutenção da tradição e do pacto firmado com a sereia, é uma forma de manter as condições de mar sustentáveis para todos, com abundância de peixes e mar calmo. Com a modernização da região, esse frágil equilíbrio é colocado em cheque, os perigos oriundos de se brincar com a natureza são inumeráveis. Em Kaikisen, a fúria da natureza é representada pela fúria da sereia em não ter o seu ovo no momento certo.

Como eu já havia dito, embora não seja a premissa mais original possível, a história é tão bem construída e amarrada, que logo nas primeiras páginas o leitor já se sente atraído pelo enredo. E mesmo que o ponto alto do mangá seja, sem sombra de dúvidas, o mistério que envolve a existência ou não da sereia e seu ovo, os personagens principais não são deixados de lado. Temos o nosso protagonista Yosuke, preso em um grande e antigo dilema.



O Dilema de Yosuke parece simples mas não é, a possibilidade se ser racional, ou embarcar de vez na história do ovo da sereia, assim como acreditam boa parte da população pesqueira da pequena cidade. Um dos pontos principais que faz Yosuke pender para o lado da proteção das tradições é justamente o seu avô, que com sua obstinação ferrenha tenta manter o pacto que foi selado pelos seus antepassados.

O problema mesmo é o pai de Yosuke, que pretende fazer dinheiro rápido e desenvolver a cidade, tirando proveito do folclore que se desenvolveu ao redor da história do ovo. No meio deste turbilhão de visões está o jovem Yosuke, obrigado a tomar partido nesta ferrenha luta, mas não sabe o que fazer, seu objetivo primário era tentar se manter alheio a tudo isto, mas o dever que vem com seu sangue é maior.



No que diz respeito aos aspectos gráficos de kaikisen, o traço é sem sombra de dúvidas algo que se vê no início dos anos 90. Os personagens são bem detalhados e realistas, assim como as paisagens e outros elementos. Nada é de outro mundo em questão técnica, mas funciona muito bem conjuntamente com a história. O design da sereia é um espetáculo à parte, no começo ela nunca é mostrada diretamente, mas possui uma riqueza de detalhes que dá uma sensação de realismo assustadora ao longo da trama.

Uma das minhas queixas em relação a Kaikisen é como os eventos finais são narrados, tudo acontece demasiadamente rápido e brusco e sem uma conclusão totalmente satisfatória. Mas claro, no conjunto, fazendo uma analise pormenorizada de todos os eventos do mangá, Kaikisen, possui uma história muito bem contada. Sem sombra de dúvidas, este pequeno mangá de autoria do mestre Satoshi Kon vale o tempo gasto com sua leitura, sendo imperdível para quem está procurando algo rápido e interessante para ler.


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