quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Robot Carnival. A antologia robótica definitiva dos anos 80.


Quando 9 dos principais animadores do Japão se reúnem para criar cada um deles um curta sobre o tema "robôs" o resultado é no mínimo fantástico. Nomes como Koji Morimoto (Akira) e Hiroyuki Kitakubo (Mobile Suit Gundam) formam esse time. Como o nome sugere, Robot Carnival é um verdadeiro carnaval dos robôs, onde 9 curta-metragens, todas independentes uma das outras, formam esta memorável antologia, onde o tema principal é a interação humana com os robôs. O filme aprofunda temáticas como as consequências da responsabilidade do criador pela sua criatura e o próprio conceito de existência aplicado à robótica.

Carnival Robot foi lançado no forma OVA em 21 de julho de 1987. Sua produção se deu pelo estúdio APPP (Anti PowerPoint Party) conhecido por clássicos como Golden Boy, Robot Carnival reuniu diretores bem conhecidos, muitos dos quais começaram como animadores com pouca ou nenhuma experiência de direção. Cada segmento da obra possui um estilo de animação único, bem como a história é contada em cada um deles de uma maneira distinta, havendo enredos cômicos e irreverentes além dos dramáticos e introspectivos.


Um dos destaques da obra que é a trilha sonora (de todos os curtas) que foi composta por Joe Hisaishi. um dos mais renomados compositores japoneses, famoso por seu trabalho em clássicos como Nausicaä do Vale do Vento (1984) e na maioria dos filmes do estúdio Ghibli, como Meu Vizinho Totoro (1988), Princesa Mononoke (1997), A Viagem de Chihiro (2003), Vidas ao Vento (2013), entre outros. Ressalto a importância da trilha sonora em Robot Carnival pelo fato de apenas dois curtas apresentarem diálogos inteligíveis, e em obras onde não há diálogos a trilha sonora exerce um papel importantíssimo na ambientação, o que foi feito com muito sucesso.

O destaque de Robot Carnival é a criatividade oriunda da variedade de abordagens distintas sobre o tema que se propôs trabalhar, a interação entre robôs e pessoas. Em Robot Carnival pode se ver pelo menos um exemplo das mais variedades espécies de ficção científica que englobam a temática da robótica, buscando inspiração, por exemplo, no clássico Frankenstein de Mary Shelley, onde o criador entra em um conflito de vida e morte com sua criatura. Há ainda a abordagem clássica do seek and destroy onde o robô não passa de uma máquina de matar sem maior profundidade, como em O Exterminador do Futuro.


Nos curtas de Robot Carnival pode ser observada a influência de outros grandes autores que revolucionaram o tema dos robôs, como Isaac Asimov, conhecido como o pai da robótica moderna, por criar as famosas Três Leis da Robótica e tentar dar uma imagem pacífica aos robôs, contrastando com a imagem negativa oriunda de uma corrente literária que preconizava o medo de uma revolução das máquinas que colocaria um fim na humanidade. A obra de Asimov abordava em resumo a sociabilidade dos robôs dentro de uma sociedade humana, com todas suas dificuldades inerentes.

Além de Asimov, outros autores de ficção científica também popularizaram os conceitos que temos quando pensamos em robôs. Como não lembrar da célebre criação de Arthur C. Clarke, a inteligência artificial Hal 9000 em 2001: Uma Odisseia no Espaço, que surta voltando-se contra os humanos buscando um resultado mais eficiente da missão? Sem dúvidas Clarke faz parte do rol de autores que enumeram possíveis problemas causados pelos robôs.


Também devem ser lembrados os androides criados por Philip K. Dick em seu clássico Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? que inspirou o clássico filme Blade Runner: O Caçador de Androides. Neste contexto é abordada uma questão mais existencial da robótica, o eterno dilema de o que caracteriza um ser vivo, e como diferenciar androides dos seres humanos. Um robô capaz de simular emoções não deve ser tratado como um ser vivo, somente a reprodução é que caracteriza uma vida? Este tipo de abordagem também é muito presente tanto na literatura como em filmes e animes.

E também não podemos esquecer que o conceito de robô não se restringe às máquinas possuidoras de inteligência artificial. Dentro do universos dos animes e mangás, os famosos mechas também são chamados de robôs, só que neste caso são pilotados por seres humanos ou qualquer outro capaz de controlá-los, como nos diversos animes da franquia Gundam e em Neon Genesis Evangelion. Em Robot Carnival há um segmento que serve como exemplo deste tipo de robô destituído de vontade própria e controlado por mãos humanas.


Depois dessa breve introdução sobre a grande gama de abordagens distintas que o tema "robô" pode propiciar é possível deixar-se convencer que em 9 curtas que envolvem esse tema a surpresa e a inovação estarão sempre presentes. De fato o Japão absorveu eficientemente a temática "robótica" e abundam obras de muita qualidade que evocam o eterno conflito entre seres humanos e inteligências artificiais, destas eu posso citar alguns exemplos, como Ghost in the Shell, Time of Eve, Armitage III, Chobits, Ergo Proxy, Metropolis, entre muitos outros.

Feita as apresentações, para adentrar no mérito de Robot Carnival terei que fazer uma sucinta análise de cada um dos curtas que compõe esta antologia, diante da diversidade de temas e estilos de animação e narrativa. Além de mencionar o responsável por animar cada segmento.


Em Robot Carnival o começo e o fim se encontram. O curta de entrada que serve como introdução de Robot Carnival se une com o último curta, o qual funciona como encerramento, inclusive os seus idealizadores são os mesmos, Katsuhiro Otomo (Criador e diretor de Akira) e Atsuko Fukushima (animadora de Akira). Foram os únicos segmentos que ficaram na mão de mais de um nome de destaque da animação japonesa. Por isso vou analisar o primeiro e o último de uma maneira conjunta.

A Abertura de Robot Carnival adota um tom um tanto cômico, porém trágico, apresentando um sutil humor negro no que propõe apresentar. E por ser o primeiro segmento é o que faz jus ao nome Robot Carnival, ou em português, carnaval dos robôs, por se tratar de um verdadeiro espetáculo de destruição. A história se passa em um deserto, onde um menino encontra um cartaz anunciando a aproximação do "Carnaval dos Robôs". Imediatamente o garoto fica assustado a agitado, correndo para a sua aldeia no intuito de alertá-los sobre a chegada do "espetáculo".


O temor do garoto é explicável e totalmente aceitável, pois o Carnaval dos Robôs é uma enorme engenhoca com os dizeres Robot Carnival em letras garrafais pregadas em sua frente (Se trata da máquina que ilustra a capa de Robot Carnival e que também serviu como capa desta postagem). Essa máquina é um espetáculo itinerante dotado de diversos robôs em suas entranhas, desde músicos até bailarinas. O problema é que por mal funcionamento ou qualquer outro motivo, o Carnaval dos Robôs se tornou uma máquina de destruição, destruindo tudo no seu caminho, seja passando por cima ou explodindo com fogos de artifício ou outros apetrechos.

O Encerramento termina o que começou a ser contado na abertura, dando um desfecho a a engenhoca Carnaval dos Robôs. Esse último segmento explora bastante um tom satírico e de humor negro para terminar a antologia de um modo bastante surpreendente diante da comicidade do ocorrido. E o que falar da animação destes segmentos quando temos a mesma equipe que trabalhou em Akira? A animação é muito fluida e detalhada, o melhor que podia ser encontrado na época. O design dos personagens presou mais por dar um tom cômico do extremamente realista, combinando perfeitamente com a proposta dos curtas.


O segundo curta se chama Franken's Gears. Como o nome já sugere se trata de uma homenagem a um dos clássicos da literatura mundial do horror e ficção científica do Século XIX, Frankenstein, ou O Prometeu Moderno, de autoria de Mary Shelley. Esse segmento foi dirigido por Koji Motimoto, o qual também trabalhou como animador em Akira, e em outras obras de sucesso como Kiki's Delivery Service e The Animatrix.

Esse é um segmento bem curto e o conceito é bem simples, um cientista louco tenta dar vida a um robô utilizando a força dos relâmpagos, assim como Frankenstein. O robô cria uma espécie de vida e começa a copiar tudo o que o cientista faz. Alegre, o cientista dança com alegria, mas tudo acaba em tragédia. A animação ficou bem bacana em Franken's Gears. O aspecto decadente steampunk do laboratório, as explosões de vapor, fagulhas, luzes piscantes e outros elementos ficaram muito bem detalhados para dar um ar de insanidade decisivo ao curta.


Agora temos o terceiro curta, Deprive. Desta vez temos um enredo mais aventuresco, envolvendo batalhas com robôs alienígenas e romance.  Em Deprive, robôs atacam uma cidade e sequestram uma garota. Seu companheiro, um andróide, fica danificado tentando protegê-la. Buscando resgatá-la, ele é transformado em um androide de batalha e toma a forma humana e parte em busca de salvar sua protegida, enfrentando robôs assassinos e o líder dos alienígenas. Como na maioria dos curtas, neste não há falas, mas a história é perfeitamente entendível.

Deprive foi dirigido por Hidetoshi Omori, experiente animador que trabalhou em obras como Bubblegum Crisis e Kill la Kill. Deprive se mostrou uma típica história de aventura com uma boa dose de ação. Esse tipo de abordagem dos robôs é bastante comum, mas se bem contada pode surpreender, como neste caso. A trilha sonora muito bem colocada ajudou a dar ritmo ao curta indispensável para o sucesso do mesmo. A animação também não ficou para trás, com o design dos personagens típico dos animes de aventura dos anos 80.


O quarto segmento da antologia é Presence. Depois de uma aventura eletrizante temos algo mais intimista, uma história que envolve uma relação sentimental entre uma pessoa em um robô, mostrando as dificuldades deste relacionamento. Presence não faz feio perante a obra de Asimov, ao abordar questões profundas da robótica de uma maneira tocante e bem dirigida. A ambientação de Presence também é um espetáculo a parte, passando-se em um período futurístico mas com a aparência da Inglaterra do início do Século XX. Um perfeito exemplo de steampunk.

Um dos únicos dois segmentos com diálogo, conta a história de um homem que tem uma obsessão com uma menina robô que ele secretamente construiu em uma tentativa de compensar a falta de qualquer relação próxima com sua família, em especial sua esposa, a qual era uma importante mulher de negócios que não lhe dava atenção. Quando o robô assume uma personalidade própria, muito além do que o homem tinha programado, inicia-se o conflito da trama, onde ele tem de lidar com sua criatura apaixonada por ele, e parece que ele também não é indiferente à ela.


Na minha opinião este foi um dos melhores contos da antologia, pois conseguiu inserir com eficiência uma narrativa estritamente sentimental dentro de um contexto de ficção científica. Explorou muito bem os dilemas do homem ao criar um ser que possuía sentimentos tão ternos em relação a ele e como ele não conseguiu retribuir como a garota robô mereceu, enfatizando o sentimento de remorso. Esse segmento recebeu uma animação mais serena, pacata, diante do tipo de história, sendo o seu principal destaque a belíssima ambientação britânica cheia de detalhes. A Direção deste curta ficou nas mãos de Yasuomi Umetsu, conhecido por criar a série de filmes Kite.

O quinto curta de Robot Carnival se chama Starlight Angel, uma típica história bishoujo, apresentando duas amigas em um parque de diversões com a temática de robôs. Uma das meninas descobre que seu namorado está saindo com sua amiga. A garota, naturalmente, fica muito chateada e em prantos corre pelo parque até entrar em um passeio de realidade virtual, o qual, devido suas memórias desagradáveis, a faz ser perseguida por um mecha gigante. Nesse meio tempo, um robô do parque a procura para devolver um pingente e acaba defendendo-a do terrível mecha.


A animação desse segmento conseguiu transitar com qualidade dos momentos mais parados focados no passeio das garotas até a ação desenfreada da parte surreal do curta. O destaque vai para o mecha gigante o qual foi muito bem animado, apresentando uma riqueza de detalhes. A trilha sonora também contribuiu da perfeição da transição entre os momentos pacatos e os de ação. Quem cuidou deste curta foi Hiroyuki Kitazume, famoso por trabalhar na franquia Gundam.

Cloud o próximo curta é o mais diferente de todos devido a técnica usada em sua animação. Cloud apresenta a história de um robô andando pelo tempo, refletindo a sua evolução até virar uma criança de verdade, lembrando a história de Pinnochio. O pano de fundo é animado com nuvens que retratam vários eventos do universo, como a modernização da sociedade, bem como a auto-destruição do ser humano com armas nucleares.


A animação é feita de uma maneira bastante distinta, como se fosse desenhada somente a lápis ou carvão, apresentando um estilo áspero da gravura como da arte em água-forte. As tonalidades são sempre monocromáticas e na animação as gravuras se sobrepõe realmente como se fossem uma sucessão de desenhos feitos a mão. Quem dirigiu e animou Cloud foi Manabu Ohashi sob o pseudônimo de Mao Lamdo, conhecido por seu trabalho em obras como Gen Pés Descalços, Metropolis, Roujin Z e Air.

O Sétimo segmento de Robot Carnival é Strange Tales of Meiji Machine Culture: Westerner's Invasion. Esse curta é o segundo e último a possuir diálogo e diferentemente de todos os outros é sobre robôs que não possuem vontade própria, sendo apenas mechas controlados por humanos. Esse curta possui uma das histórias mais bem boladas da antologia. A história se passa aparentemente no século XIX e apresenta dois mechas pilotados por uma tripulação humana. Um invasor ocidental em seu robô gigante tenta dominar o Japão, mas é desafiado por moradores operando um robô gigante japonês.


O estilo deste curta lembra um filme de propaganda japonês da era da Segunda Guerra Mundial, representando um invasor estrangeiro que fala inglês mesmo na versão original, representando os Estados Unidos. A resistência feita pelos moradores em seu mecha representa os esforços em impedir a invasão do arquipélago do Japão pelos invasores norte-americanos. Quanto aos aspectos técnicos a animação é de qualidade, como esperado de Hiroyuki Kitakubo, que trabalhou em Akira e Black Magic M-66. Detalhe que ambos os robôs são feitos de madeira e pedra além de serem movidos por carvão e eletricidade.

Chicken Man and Red Neck é oitavo e último curta a ser analisado, já que o nono segmento foi analisado juntamente com o primeiro. Neste curta a cidade de Tóquio é invadida de maneira súbita por máquinas assustadoras comandadas por uma espécie de monstro máquina gigante super poderoso. Além disso as próprias máquinas existentes na cidade ganham vida em formas assustadoras e Tóquio é praticamente destruída visto que as máquinas cresciam conectando-se a outras máquinas, independentemente dos propósitos para os quais foram projetadas. Tóquio ficou irreconhecível.


Apenas um único ser humano sobrou acordado em Tóquio para testemunha o evento, um bêbado "Chicken Man'" pilotando sua motoneta. Assim o conto se passa com a tentativa do pinguço em fugir e sobreviver naquele caos robótico. Este curta foi inspirado em outro curta famoso dos cinemas "Night on Bald Mountain" do filme Fantasia da Disney, para quem não assistiu ainda, recomendo que vale muito a pena. Esse curta do Carnival Robot também é considerado influenciado pelo segmento Legend of Sleepy Hollow das Aventuras de Ichabod e Toad, também da Disney. Esse curta foi dirigido por Takashi Nakamura, que trabalhou em Akira e A Tree of Palme.

Assim termino meus comentários sobre todos os seguimentos de Robot Carnival. Fazendo uma análise do conjunto da obra, posso dizer que esta antologia representa o que havia de melhor da animação da década de 80, abordando diversos tipos de narrativa e explorando variados tipos de animação. Em nenhum momento a antologia fica repetitiva ou chata, já que a inovação e a variedade é justamente o ponto forte de Robot Carnival que fica definitivamente recomendado para todos aqueles que procuram apreciar uma boa história de ficção científica. Assim termino por aqui a postagem, e até uma próxima.


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