sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Short Peace. A antologia de Katsuhiro Otomo do século XXI


Seguindo a onda de Robot Carnival, o Dissidência Pop apresenta outro filme que é uma compilação de curtas. Desta vez a antologia analisada será o filme Short Peace, lançado em 2013 e dividido em quatro segmentos (cinco se contar a abertura que é um espetáculo à parte): Tsukumo, Combustible, Gambo e Buki yo Saraba, apresentando grandes nomes em sua direção, como Katsuhiro Otomo (que foi o idealizador do filme como um todo), Kouji Morimoto e Shuuhei Morita.


Para falar a verdade Short Peace é mais que um filme antológico, é um ambicioso projeto multimídia, pois além dos quatro curtas produzidos pelo estúdio Sunrise, possui um jogo de videogame Short Peace: Ranko Tsukigime's Longest Day, produzido pela Bandai para Playstation 3. A história do jogo foi escrita por Goichi Suda. e o game segue a saga de uma assassina que é encarregada de matar seu próprio pai. A idéia por trás da Short Peace era de um projeto híbrido composto por quatro curtas de anime e um jogo de videogame.

Imagem do jogo de Short Peace

Embora possa parecer que os curtas não possuem ligação entre si, por possuírem temáticas tão variadas, isto não pode ser considerado verdade, o tema principal do projeto Short Peace é o Japão, com cada segmento representando um cenário diferente dentro da história do país, desde o Japão clássico até um período no futuro ambientado em um cenário pós-apocalíptico. E como o japão contemporâneo não tinha sido representado no filme, a equipe decidiu representá-lo usando o jogo de videogame que acompanha o projeto.

A recepção de Short Peace foi muito boa, algum dos seus segmentos ganharam uma série de prêmios. Combustible ganhou o Grande Prêmio de melhor animação do 16º Japan Media Arts concorrendo com grandes obras como Wolf Children, além de ganhar o prêmio Noburo Ofuji no Mainichi Film Award em 2012. Tsukumo foi nomeado para concorrer ao Óscar de Melhor curta de animação em 2014, perdendo para o curta luxemburguense Mr. Hublot.


Short Peace possui pelos menos um curta para todos os gostos, transitando de histórias ambientadas em períodos clássicos, com ou sem elementos fantásticos, bem como no nicho da ficção científica. Além disso o estilo de animação também é bastante diferenciado o que agrega um valor positivo em uma antologia deste tipo, fugindo da mesmice.

Um ponto um tanto polêmico em Short Peace é o uso constante de elementos tridimensionais, o famoso CGI. Entretanto fiquem despreocupados, ao contrário do que ocorre na maioria dos animes comuns, em Short Peace o CGI foi usado de maneira eficiente e bem feita, unido com a velha e sempre confiável animação em duas dimensões, dando um ar de 2D meio 3D. Mas claro, sempre haverão aqueles que preferem a animação no molde clássico, mesmo que Short Peace não faça feio.


Impossível analisar mais profundamente Short Peace sem adentrar profundamente em cada um de seus segmentos de forma individualizada, diante da variedade de estilos e enredos. Por isso, escreverei um pouquinho sobre cada um dos curtas que compõe essa honorável antologia idealizada pelo grande Katsuhiro Otomo.

Primeiramente vou falar da Abertura, a qual não deixa de ser um curta produzido com muito cuidado e feito por um grande time. A Abertura (chamarei assim por falta de outro nome específico), foi dirigida por Kouji Morimoto, famoso diretor japonês fundador do estúdio 4ºC, tendo trabalhado em sucessos como The Animatrix, Robot Carnival, Kiki's Delivery Service e Black & White. A Abertura é uma espetáculo de cores combinado com uma cativante trilha sonora eletrônica.


A Abertura mostra perfeitamente o estilo de animação de Kouji Morimoto, marcado por uma grande gama de elementos psicodélicos e fantásticos e o character design típico de suas obras. O uso de cores vivas e vários elementos psicodélicos sobrepostos de uma maneira quase caótica mostra bem o estilo superflat de Kouji Morimoto. Embora seja difícil decifrar um curta de pouco mais de três minutos repleto de conteúdo extremamente surreal, a Abertura parece ser uma espécie de releitura do clássico Alice no País das Maravilhas.

A história basicamente a seguinte: uma menina aparentemente está brincando de esconde esconde, quando, como se fosse um passe de mágica, encontra um coelho falante que a faz entrar num portal (daí a referência de Alice no País das Maravilhas). Dentro do outro mundo ela é mostrada caminhando em vários ambientes psicodélicos cheios de criaturas surreais, desde uma floresta até uma espécie de oceano. Depois disso ela absorve uma esfera luminosa e começa a trocar rapidamente de roupas. É isso! Uma bela amostra do surrealismo de Kouji Morimoto.


Depois da Abertura, temos o primeiro segmento de Short Peace, Possessions, ou Tsukumo. Esse curta quase premiado com o Óscar de melhor curta de animação foi dirigido por Shuuhei Morita, famoso por dirigir animes como Tokyo Ghoul. O character design ficou nas mãos de Daisuke Sajiki. A história de Tsukumo se passa no Japão do Século XVIII e é fortemente influenciada pelo folclore japonês.

Em suma, a história de Tsukomo se passa em uma noite chuvosa nas montanha do Japão, onde um homem procura abrigo para fugir das intempéries da natureza e poder passar a noite em segurança e seco até amanhecer. Diante desta situação, ele observa um daqueles pequenos templos japoneses, aquelas "casinhas", no meio da floresta. Com todo o respeito ele entra no pequeno templo e pede permissão à divindades para passar a noite no local, demonstrando que observa os preceitos do xintoísmo.


Mas nem tudo é o que parece ser, depois de entrar no recinto ele é repentinamente transportado para um local totalmente novo e muito mais espaçoso, uma ampla sala no estilo japonês, totalmente vazia. Nessa situação começam a aparecer dezenas de espíritos na forma de velhas e estragadas sombrinhas que começam a cantar em volta do homem. O homem mostra ser um habilidoso artesão, e com os equipamentos que carrega em uma caixa começa a consertar sombrinha por sombrinha. Os espíritos agradecem sua ajuda e vão embora, permitindo que siga adiante.

A história segue mantendo este princípio, nas próximas salas o homem encontra outros espíritos em forma de objetos, e devido a bondade e respeito que demonstra para eles ao consertá-los sem pedir nada em troca, pode seguir adiante. O conceito por trás de Tsukumo tem suas raízes na mitologia japonesa, mais especificamente no mito dos Tsukumogami, que são objetos que adquirem vida depois de muitos anos, tendo relatos no folclore japonês de quimonos, selas, vasos e outros objetos que foram animados. Geralmente são inofensivos, mas podem atacar os humanos se provocados.


Tsukumo é uma história simples e bastante singela, uma fábula que mostra que o respeito que devemos ter para com os objetos, visto cada um contar sua própria história, além do dever de ajudar os menos afortunados, mesmo se tratando de objetos quebrados. Além de uma história bonita, Tsukumo possui uma bela animação com uma arte irretocável, o CGI casou muito bem com sua ambientação em duas dimensões. O colorido e a riqueza de detalhes são um dos pontos chave de Tsukumo.

O destaque da arte de Tsukumo vai para a caracterização dos espíritos dos objetos, os Tsuumogamis, desde as coloridas e cantantes sobrinhas até a riqueza de detalhes dos belos tecidos de seda japonesas. Outro ponto bacana de Tsukomo é mostrar o trabalho artesanal de restauração dos objetos, algo que foi muito bem representado, desde fazer um remendo em uma sombrinha até mesmo costurar com esmero um pedaço de tecido. Tsukumo sem dúvidas merece ser considerada uma obra premiada, mesmo não tenho ganhado o Óscar, diante do cuidado de sua produção e  do excelente resultado final.


O segundo segmento de Short Peace é o premiado Hi no Youjin, ou Combustible em inglês. Esse curta foi dirigido e escrito por Katsuhiro Otomo, o qual dispensa apresentações, autor de clássicos como Akira. Seu animador principal foi Kouchi Arai, Experiente no ramo, tendo trabalho em obras como Akira, Armitage III, Blue Submarine No. 6 e FLCL. Assim como Possessions, a história se passa no período clássico do Japão, especificamente no Século XVIII. É um espetáculo épico colocado no palco da enorme metrópole de Edo, atual Tóquio.

Combustible é uma história de amor, que segue o triste destino de Owaka, filha de uma família de ricos mercadores, e seu amigo de infância Matsukichi. Os dois sempre foram ligados desde a infância e nutrem um amor secreto, mas por motivos alheios das suas vontades não podem ficar juntos. Matsukichi foi repudiado por sua família, e está trabalhando para a brigada de bombeiros da cidade. Enquanto isso, começam as negociações para o arranjo do casamento de Owaka com alguém que ela nem conhece, mero matrimônio de conveniência.


Incapaz de deixar de lado seus pensamentos sobre Matsukichi, suas emoções loucas a fazem provocar um enorme incêndio que arrasa Edo. Por acaso, os dois se reencontram em meio ao incêndio que selou o seu destino. Sim, é uma história de tragédia, amores proibidos sempre foram comuns na história, seja no Japão ou em outros lugares, mas o que mais chama a atenção neste curta é abordar um tipo de desastre que foi, infelizmente, comum na história das grandes metrópoles japonesas, os incêndios.

A cidade de Edo sempre foi lembrada pelos grande incêndios ocorridos em seu seio, o que não é de se espantar visto que a maioria das construções no Japão eram feitas de madeira e outros materiais muito inflamáveis. Começar um incêndio era uma tarefa muito fácil. Como Combustible se passa no século XVIII, neste período ocorreram grandes incêndios em Edo que podem ter sido representados no curta, como o Fogo de Rokudo (1745), o Fogo de Horeki (1760) e o Grande Fogo de Meiwa (1772).


Combustible transita entre um período inicial de calmaria, com a apresentação dos personagens e a serenidade típica do Japão Clássico, até um momento de tensão e ação com o estopim do incêndio. o destaque vai para a atuação das brigadas de incêndio, mostrando uma fidelidade histórica impecável. E claro, o romance trágico ao estilo Romeu e Julieta não pode ser esquecido, para quem gosta de drama é uma boa pedida, mostrando com fidelidade os rígidos costumes que regiam a sociedade japonesa da época.

A animação é bastante especial, ela começa com quadros em estilo das pinturas clássicas do Japão, mostrando a grande cidade de Edo. A imagem foca em um panorama da metrópole que aumenta de tamanho até chegar na casa onde se passa a maior parte da História. A ambientação, o character design, o pano de fundo, tudo foi feito para lembrar as antigas ilustrações japonesas, o grau de detalhamento é impecável, desde a decoração até as tatuagens nos braços dos homens. O uso de CGI ficou mais evidente na representação do fogo, o qual ficou bem feito. Combustible fez jus aos prêmios que ganhou.


Hora de escrever um pouco sobre o terceiro segmento de Short Peace, Gambo. Esse curta foi dirigido por Hiroaki Andou, mais conhecido por dirigir Ajin. A história de Gambo foi criada por Katsuhito Ishii, que foi o criador original de obras como Redline. O character design do curta ficou nas mãos do célebre Yoshiyuki Sadamato, mundialmente conhecido por dirigir e desenvolver o design dos personagens de Neon Genesis Evangelion.

Assim como Possessions e Combustible, Gambo se passa no que chamam de Japão Feudal. Embora não haja uma identificação da época, pela ambientação e o uso de mosquetes se pode situar assim como os demais no século XVIII. Em resumo o segmento conta a história de Gambo, um urso polar que defende uma menininha da família real contra um Oni (uma espécie de ogro do folclore japonês). A história pode parecer simples e até bobinha, mas não se enganem, Gambo é totalmente brutal! Um furioso festim sanguinário de arrepiar os cabelos!


Gambo é um urso polar (ignorem a estranheza de se achar um urso polar selvagem no Japão), aparentemente ele é uma criatura que desafiava os humanos há muito tempo, como é mostrado no começo do curta. Sua ferocidade e força o faziam temido por todos. De outro lado, um horrendo e terrível ogro assola uma pequena vila, raptando meninas para engravidá-las, a fim de produzir mais monstros. Sério, é mostrado um exemplo dessa terrível gestação, é algo excepcionalmente bizarro!

Em suma, ninguém consegue matar o ogro e só restou na vila uma princesa herdeira da família real, próximo alvo do monstro. Nesse meio tempo entre ela ser raptada pelo ogro, ela faz amizade com o urso Gambo, o que acabou pro salvar a sua vida. O resto é previsível, gambo parte em busca do monstro e se inicia uma das mais sangrentas e brutais batalhas de vida e morte da história da animação! Impossível não gritar e torcer pelo Gambo. Gambo consegue ter um desenvolvimento muito bom, desde o começo o ritmo é na medida certa.


Percebe-se logo de cara que não é meramente um conto de fadas de crianças, mas algo muito mais brutal. O desenvolvimento dos personagens foi ótimo, mesmo com o espaço curto para tanto. O destaque vai, claro, para Gambo e o Ogro. Gambo mostrou toda fúria que um urso pode ter, e suas muitas cicatrizes só contribuíram em sua caracterização. O Ogro funcionou muito bem como vilão, sua caracterização foi ótima, destaque para a cara de desejo dele quando observava uma jovem donzela.

O CGI em Gambo é bastante presente, mas como em Possessions, ele é bem integrado na animação clássica em duas dimensões. A animação ficou bem fluída, as cenas de batalha foram muito bem trabalhadas, como eu já disse acima, foi algo brutal. O character design de Yoshiyuki Sadamato só ajudou no bom resultado de Gambo. Concluí-se que Gambo foi um segmento muito bem produzido e de qualidade, a ressalva vai mesmo para aqueles que não suportam uma boa dose de gore, esses podem virar o nariz para Gambo.


Para finalizar com chave de ouro há o curta Buki Yo Saraba, ou A Farewell to Weapons, o que traduzido ficaria como Um Adeus às Armas. Esse segmento foi dirigido por Hajime Katoki, que possui experiência em diversos animes da franquia Gundam. O curta foi baseado em um mangá one-shot de mesmo nome de autoria de Katsuhiro Otomo, publicado em 1981. O character design foi desenvolvido por Tatsuyuki tanaka, célebre ilustrador japonês que também trabalhou como animador em Akira.

Diferentemente dos demais segmentos, Farewell to Weapons se passa em uma desértica Tóquio pós-apocalíptica, e segue um grupo de soldados com a missão de desativar armamento nuclear, daí o significado do título do curta. Aparentemente o grupo é especializado neste tipo de missão, por isso se trataria de mais uma operação rotineira.O grupo veste futurísticos trajes de proteção e usam um armamento bastante pesado.


O problema deles é que não basta apenas desativar as armas, mas para alcançar o objetivo são obrigados a inutilizar robôs de segurança, os quais ficaram vagando nas cidades mesmo depois de terminadas as guerras e ainda são capazes de neutralizar qualquer ameaça que se ponha em seu caminho. Entretanto, não é qualquer robô, esses robôs são muito poderosos, embora possam parecer lentos, possuem reflexos num nível altíssimo e ainda por cima podem disparar poderosos laser, além de possuírem uma durabilidade monstruosa.

Devido a esta situação, o grupo prepara uma operação tática de primeira para destruir o robô e desativar a bomba. Nem tudo sai como planejado e eles se veem em um combate de vida e morte para completar a missão. O curta mantém um clima sério, o que é aceitável diante do conteúdo a ser mostrado. Mesmo assim, há os momentos de humor e descontração, além de um sentimento de camaradismo entre a equipe que é muito bonito.


A animação de Farewell to Weapons é muito bem feita, assim como nos demais curtas. O CGI foi muito bem utilizado, o que chega a ser irônico, já que os animes da Sunrise geralmente não possuem um CGI de qualidade, Short Peace é uma feliz exceção. As cenas de batalha ficaram muito realistas, de cair o queixo, além da riqueza de detalhes, seja dos trajes dos combatentes, como de suas armas, dos robôs de proteção e da ambientação pós-apocalíptica.

O final do curta ainda guarda uma reviravolta muito bem planejada, com uma dose generosa de ironia e humor negro, para fechar com chave de ouro uma obra inspirada em um mangá do mesmo gênio criador de Akira. A trilha sonora também é envolvente e não deixa a desejar. Assim, pode-se concluir que Farewell to Weapons encerra de maneira muito competente a antologia Short Peace, pois possui uma história envolvente e bem dirigida.


Assim, depois de analisar cuidadosamente cada segmento de Short Peace, devo dar um parecer geral sobre ela. Todos os segmentos foram interessantíssimos, produzidos por gente de qualidade que sabe o que faz. A antologia possui curtas variados, não se prendendo a um único tema, isso não é ruim nem é bom, mas permite uma boa gama de tipos diferentes de animação e história que podem agradar muita gente. Haverão aqueles que vão gostar de apenas alguns ou apenas um dos curtas, outros vão amar Short Peace inteiro. Seja o que for, essa antologia fica muito bem recomendada.

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