sábado, 29 de julho de 2017

La Croisade des Innocents - A pureza das crianças contra a devassidão do mundo.


1212, em um pequeno vilarejo da França, iniciou-se um dos capítulos mais obscuros da Idade Média, a Cruzada das Crianças, um misto de fatos misturados com lendas, que culminou em uma terrível tragédia. Um jovem pastor de 12 anos, acreditando estar tocado pela vontade de Deus, empreende uma viajem sem volta com o objetivo de alcançar Jerusalém. Romanceando este evento tão nebuloso, temos o fabuloso trabalho de Usamaru Furuya (Suicide Club, The Music of Marie), que não teve freios em reproduzir de maneira magistral todos os horrores vividos pelas crianças da época, como violência sexual, doenças e fome. Um mangá ficcional, mas que choca pelo seu realismo brutal, sendo um ótimo exemplo das narrativas profundamente psicológicas de Usamaru Furuya.

La Croisade des Innocents, Innocents Shounen Juujigun no original (preferi utilizar no título o nome do mangá em francês, soa mais poético, e pelo fato da história ter se passado na França...), o que pode ser traduzido para o português como a Cruzada dos Meninos Inocentes. O título faz sentido quando se pensa na Cruzada das Crianças, uma vez que somente meninos participaram dela, tendo as meninas sido excluídas. Isso pode parecer discriminação, mas são coisas da época, e de qualquer forma, foi muito melhor nenhuma menina ter participado, se não a tragédia seria muito maior.


Este mangá é composto por três volumes, possuindo em sua totalidade 25 capítulos. Foi publicado de 05 de novembro de 2007 até 05 de novembro de 2011 na revista Manga Erotics F. Como já disse acima, esse mangá é de autoria do renomado Usamuru Furuya, que é bastante conhecido por desenhar mangás com um forte apelo psicológico, apresentando temas profundos e intrincados, ele é sem dúvidas mais lembrado por seu mangá muito elogiado The Music of Marie, mas também destacam-se de sua autoria a adaptação em mangá de Suicide Clube e o mangá Litchi☆Hikari Club.

Mangás históricos são bastante comuns, tendo aos montes por aí, mas La Croisade des Innocents se diferencia por ser uma das raras adaptações de eventos históricos não muito conhecidos, como no caso, a Cruzada das Crianças. E esta Cruzada das Crianças não é só pouco conhecida, como o que se conhece dela é muito mais especulação dos historiadores baseadas em menções esparsas ao longo da história, do que fatos propriamente bem documentados, sendo muito difícil separar o que é mito e o que é realidade.


O que se conhece como a Cruzada das Crianças são vários relatos com elementos em comum, principalmente versando sobre um garoto conduzindo um extenso número de crianças (alemão ou francês) para o sul da Itália ou França com o objetivo de libertar a Terra Santa (Jerusalém) e que culmina com a morte das crianças ou sua venda para traficantes de escravos mouros do norte da África (naquela época os nobres muçulmanos apreciavam ter meninos cristãos em suas cortes como escravos).

Segundo historiadores modernos, parece que houve duas movimentações de crianças que poderiam ser chamadas de Cruzada das Crianças, na primeira, Nicholas, um pastor 10 anos, da Alemanha, conduziu um grupo dos Alpes até à Itália, isso em 1212. Por volta de 7.000 crianças chegaram em Genova. Foi alardeado que as águas do Mediterrâneo se abririam para eles poderem passar (ao estilo de Moisés), o que não aconteceu, provocando a dispersão do grupo, com a maioria das crianças terem sido vendidas para mercadores de escravos ou simplesmente morrido de fome ou de frio.


O segundo movimento foi iniciado por um pastor de 12 anos chamado Stephen, que afirmou ser portador de uma carta de Jesus para o rei de França. Atraiu uma multidão de mais de 30.000 pessoas e se dirigiu para Saint-Denis, onde supostamente praticou milagres. Parece que foi recebido pelo rei Filipe II, tendo recebido ordens para dispersar a multidão. Parece que não tinham planos de ir até Jerusalém. Usamuru Furuya pegou um pouco destas informações, misturou-as e acrescentou detalhes inéditos, criando a sua própria versão da Cruzada das Crianças.

Já adianto para não esperarem uma adaptação que seja fiel ao que se conhece sobre a Cruzada das Crianças, este não foi o objetivo do autor, que preferiu fazer sua própria versão romanceada do incidente. O próprio Usamaru Furuya em seu posfácio afirmou que o mangá não era historicamente apurado, sendo seu objeto transmitir, da melhor maneira possível, as dificuldades das pessoas daquele tempo, em especial das crianças, que eram vistas apenas como "adultos em miniatura", expostas à toda sorte de perigos e sofrimentos. Neste objetivo, Usamaru Furuya foi muito bem sucedido.


Esse é justamento diferencial de La Croisade des Innocents, o autor inseriu uma grande gama de personagens (13, em referência a Jesus e seus 12 discípulos), todos crianças e cada um com uma personalidade e lugar na história distintos. É como se Usamaru Furuya quisesse criar um espelho da sociedade da época, apresentando vários pontos de vista. Há o menino angelical, o alegre, o bebê-chorão, o riquinho metido, o puxa-saco, o ladrão, os gêmeos, o bem humorado, o leproso, o sábio, o aventureiro com vontade de estraçalhar alguns infiéis...

Outro ponto importantíssimo de La Croisade des Innocents é como os adultos lidam com as crianças. As crianças em sua jornada apenas encontram aproveitadores, bandidos e interesseiros, salvo algumas exceções. Os adultos, principalmente os poderosos, como os membros da Ordem Templária e da Igreja, apenas visam se beneficiar e faturar dinheiro às custas das crianças, além de serem responsáveis por ofensas terríveis à integridade física das jovens criaturas, como violência física e pedofilia. Usamuru Furuya mostrou com maestria como o mundo dos adultos é deturpado e acaba deturpando a pureza das crianças.


La Croisade des Innocents é um mangá pesado, muito pesado, e pode ser ofensivo a muitos leitores mais sensíveis. O autor não teve nenhuma pena em inserir as crianças de sua história em um universo tão cruel e bárbaro. Mas se você suportar temas como pedofilia, sodomia e blasfêmia, é uma ótima leitura. Não chega a ser um spoiler dizer que tudo termina em tragédia, pois já sabemos desde sempre que a Cruzada das Crianças é um fracasso, tanto nas lendas retiradas das brumas da história como no mangá de Usamaru Furuya.

Também é interessante verificar como as crianças desconhecem o que significa partir em uma Cruzada. Para muitos que entraram na empreitada era apenas uma diversão, uma aventura. Caso tivessem conhecimento da realidade, creio que não teriam nem cogitado a ideia maluca de partir para reconquistar a Terra Santa com um bando de crianças liderados por um sincero, mas inexperiente, líder religioso. Claro que muitos adultos também compartilhavam da "certeza" do sucesso da Cruzada, mas somente as pessoas simples dos vilarejos, o que não acontecia com os poderosos.


Tudo começa quando Étienne, "a criança escolhida por Deus", diante de uma visão supostamente divina, recebe um chamado do próprio Jesus, que lhe conferiu uma corneta milagrosa, e lhe imbui da missão de ir até a Terra Santa, liderando a cruzada infantil. Até então Étienne vivia sua vida tranquila como pastor de ovelhas, brincando com seus amigos, muitos dos quais fariam parte de sua "irmandade". Nota-se que Étienne sempre teve certas insinuações místicas, como poder prever o tempo com precisão, curar ferimentos, etc., além de possuir uma sensibilidade e gentileza fora do comum. Esse chamado divino lembra muito a história da Joana D'Arc.

Aos poucos o grupo de Étienne vai se formando, primeiramente com seus amigos, tendo como destaque o jovem Nicolas, que tirando Étienne é o segundo mais importante da história, se bem que de alguns ângulos pode ser considerado o personagem principal de La Croisade des Innocents. Nicolas é sincero e destemido, idolatra os cruzados e almeja se tornar um cavaleiro, como seu falecido pai. Ele que toma partido em montar a Cruzada propriamente dita, Étienne, em sua simplicidade, preferiria até mesmo ir sozinho na aventura. Nicolas possui uma vontade de ferro, tendo até mesmo, num ataque de fúria, cortado sua testa em forma de cruz, para mostrar sua devoção à causa da retomada da Terra Santa.


Nicolas, mesmo sendo o melhor amigo de Étienne, é totalmente o oposto dele, sendo agressivo e aventureiro. Seu defeito é ser suscetível pelas palavras dos outros, acreditando que seu dever quando chegar na Terra Santa é matar infiéis, sendo que Étienne abomina totalmente esse tipo de ideia. Há ainda Christian, o único que sabe ler e escrever, que prefere a ciência ao invés da religião; Luc, alegre e destemido, pensando que partiria apenas em uma aventura, ignorando a realidade; Henri, um menino meigo, o mais novo da turma, com 10 anos, puro e frequentemente chamado de bebê-chorão, ele idealiza cavaleiros, mas é muito covarde; Marc, o alívio cômico, com seu fantoche chamado Leonardo.

A turma ainda é composta por Laurent e Lilian, gêmeos, que recebiam muito preconceito somente pelo fato de serem gêmeos, o que era visto muito negativamente na época, Remy, o menino leproso; Guillaume e Pierre, dois filhos de aristocratas, já corrompidos pela ganância de seus pais; Guy, um ex bandoleiro que é abandonado pelo seu bando e acolhido por Étienne; e, por último, o enigmático Michael, que é o último a entrar no grupo, sendo um elemento da Ordem Cisterciense, e por isso, o único "religioso" de carreira do grupo.


É curioso ver como esse grupo heterogêneo se une para partir em uma aventura desse calibre, possuindo personalidades tão diversas. Cada um possui um motivo para embarcar para a Terra Santa. Étienne quer obedecer o chamado de Deus; Nicholas quer ser um cavaleiro; Marc e Luc só querem viver uma aventura; Henri quer ser corajoso; Lillian e Laurent querem expurgar o pecado de sua mãe ter parido gêmeos; Remy quer se ver curado da lepra; Guillaume e Pierre, as maçãs podres, só querem se beneficiar com a situação. Todos embarcam na jornada com seus problema pessoais enfrentando as dificuldades inerentes a um empreendimento do tipo, até que tudo vire uma espiral fora do controle.

Assim como nos relatos históricos, as treze crianças originais acabam atraindo uma multidão de crianças que também querem participar da Cruzada, atraídas pelo desejo de aventura ou meramente empurradas pelos seus pais. Étienne é originalmente contra essa ideia, mas diante das circunstâncias, pouco pode fazer para impedir a situação e teve de aceitar a formação da multidão que o acompanharia. Pobres coitados, pouco sabiam para onde estavam indo.


As crianças são jogadas de cara e são obrigados a lidar com uma grande variedade de temas que não são nem um pouco irrelevantes até em nosso presente, como igualdade religiosa, que era tida como ruim, relações homossexuais, corrupção da justiça e do clero, pedofilia, prostituição infantil, etc. Também sendo notável como Usamaru Furuya vai trabalhando estes temas e como seus personagens lidam com isso, por exemplo a questão das heresias. Os jovens entram em contato com famosas heresias da época, como a dos albigenses e dos valdenses, que questionam a autoridade da igreja.

Outros personagens importantes vem e vão durante a viagem. Destaco a ex-prostituta Isabelle, que como os garotos, ela é praticamente uma criança, obrigada a se prostituir para não morrer de fome. Ela possui uma ligação muito intensa com Étienne, simbolizando claramente Maria Madalena aos pés de Cristo. Outra personagem interessante é Colette, um das poucas pessoas adultas que acolhe os meninos e possui um bom coração, mantendo em segredo uma gruta de orações da heresia Valdense,


Outro tema espinhoso e envolto em mistérios até hoje, que é importante no mangá, é a questão dos templários. Sabe-se que a Ordem dos Templários foi uma poderosa e renomada ordem de cavalaria religiosa da época, com o propósito original de proteger os cristãos que voltaram a fazer a peregrinação a Jerusalém após a sua conquista. Com o passar do tempo, a ordem ficou riquíssima e muito poderosa, ganhando enorme poder político, militar e econômico, o que acabou gerando dúvidas quanto a idoneidade destes negócios.

Além do ponto de vista político, a Ordem dos Templários sempre foi acusada de praticar rituais blasfemos e satânicos em suas cerimônias de iniciação. Muitos historiadores dizem que essas acusações não passavam de uma tentativa de desmerecer os templários. Sendo verdade ou não, Usamaru Furuya trabalhou no sentido de expor esses "segredos" da Ordem em seu mangá, tendo as crianças sido vítimas do desejo e cobiça de um templário poderoso, tanto no sentido financeiro como no sexual.


Também foi interessante o autor mostrar como a Ordem dos Templários "inventaram" o banco por assim dizer. Um peregrino poderia deixar seu dinheiro com eles, para a sua segurança, e depois pegá-lo de volta em Jerusalém. Não preciso nem dizer quem ficou com o dinheiro das doações que a cruzada recebia. O mesmo tipo de coisa se passa na própria estrutura da Igreja, onde a Cruzada das Crianças também passa a atender os interesses pessoais de religiosos que buscam distinção e prestígio, almejando cargos importantes. Além disso, a questão religiosa da inquisição contra os hereges também é trabalhada e de importância crucial ao enredo.

Étienne possui muitas semelhança com Jesus Cristo. Acolhe os doentes, os criminosos e as prostitutas. Possui um coração gentil e uma mente aberta à caridade. Ele também é tido um momento como o santo e o outro como herege. Sua amabilidade e respeito com todos não foi aceita pelas autoridades da época que o perseguiam. E igualmente como a figura de Cristo, Étienne é traído por um dos seus apóstolos, tal como Judas fez, mesmo que os interesses em jogo tenham sido diferentes.


Quanto aos aspectos técnicos do mangá propriamente dito, posso dizer que o seu ritmo e desenvolvimento dos personagens é muito decente, mesmo para um mangá curto de apenas três volumes. O autor conseguiu capturar com maestria os problemas da jornada e como as crianças idealizam a situação desde o início até terem que se deparar com a monstruosa realidade do mundo. Fé, fanatismo, ideais, interesses mesquinhos, todas esses elementos colidem de forma poderosa em La Croisade des Innocents.

As crianças, que são os personagens principais, possuem um amadurecimento que nem os adultos de hoje podem se gabar de conseguir. Aqueles eram tempos difíceis para as crianças em um modo geral. Mesmo em uma atmosfera cruel, é bonito ver como as crianças se esforçam para proteger elas mesmas das injustiças praticadas pelos adultos. mesmo que no final seu esforços foram praticamente desperdiçados diante de uma tragédia total. La Croisade des Innocents não é uma história feliz e muito menos possui um final harmonioso, mas é sincero em expor que mesmo em situações horríveis há sentimentos bons em jogo.


É interessantes como os meninos possuem um desenvolvimento estável enquanto a estória tem o seu prosseguimento. Como as crianças na época eram consideradas adultos em miniatura, elas não recebem nenhum tratamento especial, tento que crescer rapidamente e aprender de forma drástica o que é certo e errado. Além disso, a personalidade dos meninos se desenvolve de maneira progressiva, aos poucos vamos nos dando conta de seus passados e verdadeiras intenções, o que vai fechando vários pontos do enredo. Mesmo quanto aos personagens que podemos chamar de "maus", entendemos suas situações e vemos que eles são apenas vítimas do contexto em que viviam.

A arte de La Croisade des Innocents é um espetáculo à parte e merece suas considerações. O traço de Usamaru Furuya é belo e muito detalhado, não sendo diferente neste mangá. O que mais chama a atenção numa primeira vista é o design dos personagens. Todos os meninos possuem feições andróginas, confesso que no começo pensei que havia meninas no grupo, ledo engano. Como só posso conjecturar a respeito, penso que a intenção do autor foi conferir aos meninos uma aura angelical, pura, independente de sexo, o que funcionou muito bem.


Outro elemento muito interessante é como o autor trabalhou os momentos dramáticos e visionários. Sempre que Étienne tocava sua corneta mágica, ou Michael cantava com sua voz angelical, o som era representado por fitas que se alongavam nas cenas, conferindo uma cena belíssima, que presenta muito bem uma atmosfera da Idade Média. Além disso, em muitos quadros vemos elementos decorativos medievais, como arabescos e floreios, parecendo que estamos lendo algum daqueles livros medievais escritos à mão repletos de iluminuras. E também alguns quadros de informações lembram pedaços de pergaminhos velhos.

As expressões faciais e principalmente os olhares são um dos pontos chaves da arte. É possível ver que enquanto a estória fica cada vez mais aterrorizante e dramática, as expressões e olhares acompanham essa evolução. O contraste da pureza da representação dos meninos com o ambiente destrutivo e maligno em sua volta causa uma impressão muito interessante ao contexto final do mangá. As cenas de ação também são muito bem produzidas, e o autor não pensou duas vezes em retratar toda a violência de maneira muito "viva" o que pode chocar a maioria dos leitores.


Se eu recomendo La Croisade des Innocents para alguém devo ser honesto em admitir que pode ser uma leitura difícil, não no que diz respeito ao andamento da narrativa, mas sim ao fato de que o autor ilustrou situações e comportamento que nós, atualmente, consideramos totalmente inaceitáveis. É difícil e pesado ver crianças terem de encarar a realidade dura do mundo se nenhuma preparação específica. Mesmo assim, a estória é tão boa que compensa tudo isso, tanto para os que gostam de historia quanto para aqueles que apreciam um enredo bem contado.

Espero quem for ler esse meu texto sinta vontade de ter a experiência que é ler La Croisade des Innocents. Confesso que foi um dos melhores mangás que li nos últimos tempos, sendo altamente recomendável. Com certeza é uma experiência intensa e chocante, digna de figurar entre as melhores obras de Usamaru Furuya, que mais uma vez mostra o motivo de ser um dos autores mais celebrados da atualidade.


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