Colloquium - Mangá também pode ser brasileiro.


O Dissidência Pop é conhecido por apresentar várias obras menos conhecidas do público em geral, mas até o presente momento nunca falei de alguma obra nacional, sendo que há vários artistas que fazem um trabalho muito bom e infelizmente são todos pouco conhecidos na sua própria terra, mas mesmo assim, acabam obtendo reconhecimento internacionalmente, como mostram os resultados das últimas edições do Silent Manga Audition, competição japonesa que abre espaço para quadrinistas do mundo todo participarem, sendo que os brasileiros ocupam um espaço de destaque. Fiz toda essa introdução para dizer que chegou em minhas mãos um mangá nacional que vale a pena ser lido e conhecido, Colloquium, do gaúcho João Eddie.

Colloquium foi publicado de maneira totalmente independente pelo próprio autor, assim como a maioria dos quadrinhos nacionais tem sido ultimamente, o que é um mérito, já que esperar por uma editora reconhecer o potencial de um artista nacional é bastante raro e motivo de vários sofrimentos. O mangá é bem fininho, contando com 75 páginas e duas histórias, Colloquium, que dá o título ao volume e corresponde a 50 páginas, e Thank You, com as 15 restantes.

Página de Colloquium, onde é mostrado tanto Flora, a protagonista, como Joshua, seu fiel companheiro.

Não pensem que a pouca quantidade de páginas seja preguiça do autor, publicar algo no brasil já é difícil e quanto o maior número de páginas mais caro se torna, e o João Eddie já possui vários trabalhos publicados ao longo dos últimos anos. O rapaz começou sua atividade em 2011, com o mangá nacional Tanosekai, e posteriormente, ao longo dos anos, publicou várias one-shots em diversas revistas e publicações, como a Henshin Online da editora JBC e na Dracomics Shonen, da editora Draco.

E como eu já havia mencionado, foi premiado mais de uma vez no concurso do Silent Manga Audition, ganhando o Excellence Award com a one-shot Black Birds em 2018 na 10ª edição  do concurso, também em 2018 só que na 9ª edição, foi premiado com o grande prêmio na categoria Grand Prix, com a história Fisherman Tales. E por fim, já em 2016, recebeu uma menção honrosa com a história Thank You, e esse one-shot faz arte do volume de Colloquium, como já havia mencionado acima.

Outros quadros de Colloquium, desta vez mostrando a dificuldade de Flora de viver em um lugar onde apenas ela possui a consciência de que os animais também merecem ser bem tratados.

A sinopse  de Colloquium é bastante sucinta. Flora é uma garota que possui a incrível habilidade de falar com os animais. Porém este mesmo dom, pode ter um preço muito alto. O que eu posso dizer sobre Colloquium? Fora a sinopse que sugere que a protagonista seja uma espécie de Dr. Dolittle, a história da Flora não tem nada de comédia e é muito mais tocante. Flora é uma menina que vive no interior, onde o contato com os animais se dá no cotidiano, e mesmo que sua família (aparentemente composta por ela e sua mãe) não trabalhe na roça, a menina se depara com cavalos, cachorros, gatos e pássaros durante a narrativa.

E o que Colloquium tem de especial? Em poucas páginas passa uma mensagem muito importante e relevante atualmente sobre o cuidado que temos para com os animais. É normal nós vermos os outros seres vivos como criaturas inferiores da criação, ou meramente como nossos servos, como se a existência deles fosse apenas servir aos seres humanos, negando o fato de que todos somos habitantes do planeta Terra em busca de sobrevivência. Flora pouco pode fazer para ajudar os animais, mas isso não é o mais importante, já que Colloquium foca nos sentimentos e desejos da garota de que houvesse um mundo melhor para todos, humanos e não humanos.

Mais um momento de Reflexão de Flora.

Thank You também se mostrou uma pequena one-shot bastante convincente, em poucas palavras, e nenhum diálogo, como é a regra do Silent Manga Audition, passou uma mensagem simples mas poderosa sobre o poder de se ver a vida com mais otimismo e sobre os encontros que a vida nos proporciona, e mesmo nos momentos mais tristes ainda podemos sorrir.

Voltando a falar de Colloquium, uma coisa que me chamou a atenção no traço do João Eddie foi a similaridade com o traço de um dos meus mangakás favoritos, Daisuke Igarashi. E não quero criticar o autor de Colloquium com isso insinuando que o seu trabalho se parece com o de algum outro, muito pelo contrário, só quero ressaltar que ele me lembrou um grande mestre do mangá. As semelhanças principais foram no traço, visto que o estilo de desenho do João está bastante rabiscado e um tanto indefinido em alguns detalhes, assim como o do Daisuke Igarashi, além disso, a temática de uma abordagem tão terna e mística da natureza é comum em ambos os autores.

Mesmo com essas semelhanças, o João Eddie possui um traço próprio e uma identidade única, o que agrega valor ao seu trabalho. Então fica a dica, nunca é demais apreciar um trabalho nacional, principalmente quando é de qualidade. Não estou ganhando nada por isso, mas vocês, caso tiverem interesse, podem comprar o Colloquium clicando aqui, onde fiz um direcionamento para o site onde é vendido o mangá de forma independente. Espero que gostem da recomendação, até uma próxima!

Cena de Thank You, também incluído no volume de Colloquium.

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