segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sol Bianca. Pirataria e aventura nas profundezas da galáxia.



A postagem de hoje possui um caráter especial, ela é parte de uma iniciativa da comunidade Blogosfera Otaku BR que consiste em uma "corrente de reviews". Nessa corrente, um blog participante sorteia outro para realizar uma postagem, mas não de uma obra específica, e sim de um tema, deixando livre o participante para falar do que quiser relacionado ao tema. O blog que me fez a indicação foi o É só um Desenho, e tema que me foi imposto, foi "pirataria". E para cumprir minha missão optei por falar de uma obra que envolve um belo grupo de piratas espaciais e uma aventura nos confins do universo.


O tema pirataria é mais complexo do que parece, resolvi fugir do que seria considerado óbvio dentro do tema, como One Piece, a fim de não fugir da proposta do blog Dissidência Pop, que é apresentar um conteúdo diferenciado. Dentro da pirataria, que por definição é saquear por meios de embarcações, eu também poderia falar sobre alguma obra que envolvesse vikings, como Vinland Saga, ou ainda  piratas modernos, como em Black Lagoon. Há ainda piratas do ar, que se utilizam de aviões e outros veículos, como em alguns filmes do Estúdio Ghibli, em especial Porco Rosso e Laputa e O Castelo no Céu.



Entretanto, como escolha de uma obra, preferi abordar piratas "espaciais", mesmo que o termo "pirataria", segundo os dicionários, se refira a uma forma de banditismo marítimo. Contudo, a ficção científica, por uma questão de nomenclatura e similaridade, já aceitou e adotou naves espaciais como se embarcações fossem, mantendo seus institutos clássicos, como a existência de cargos como almirantes e capitães, além da existência da própria pirataria. Dentro do universo dos animes, nesse seguimento de pirataria espacial se destaca com o clássico Captain Harlock.

Dentro deste seguimento de pirataria espacial, adentrando na ficção científica, a obra escolhida foi Sol Bianca, encontrada diretamente dos confins do início dos anos 90. Sol Bianca é uma obra original, ou seja, não derivou de algum mangá ou de outra fonte, composta de duas OVAs de aproximadamente 50 minutos cada, lançados o primeiro episódio em 21 de março de 1990 e o segundo em 21 de julho de 1991. Sol Bianca foi produzida pelo estúdio AIC. Cada episódio foi dirigido por um diretor distinto; o primeiro OVA por Katsuhito Akiyama, lembrado pelo anime El-Hazard, e o segundo por Hiroki Hayashi, mais conhecido como o diretor de Tenchi Muyo.



Era previsto que Sol Bianca teria mais episódios, mas o motivo de sua não concretização não é certo. Especula-se que a obra não fez muito sucesso na época, não sendo rentável aos produtores investirem no anime. Embora tenha ganhado um prêmio de melhor OVA no festival Anime Expo em 1993. Foi feito um remake da obra em 1999, chamada Sol Bianca: The Legacy, não possuindo ligação quanto ao enredo com sua predecessora. A presente postagem se resume aos dois episódios clássicos do inícios dos anos 90.

E do que se trata Sol Bianca? Piratas! Mais precisamente o enredo narra as aventuras da tripulação de uma nave pirata chamada Sol Bianca, no ano de 2395. Tripulação esta, composta exclusivamente por mulheres, o que já foge do comum, que desde tempos imemoriais a pirataria seria uma atividade exclusiva para homens. Enfim, como todos bons piratas, o objetivo da tripulação de Sol Bianca é conseguir riquezas e equipamentos valiosos, como armas, etc... A fama da nave Sol Bianca é reconhecida por toda a galáxia.



Primeiro, devo adverti-los que cada episódio de Sol Bianca narra uma aventura própria, sem ligação com a outra. No primeiro episódio, que é o mais famosos e aclamado pela crítica e pelos fãs, a tripulação da Sol Bianca ataca e saqueia uma nave de contrabandistas. Sem querer, elas acabam levando para nave um menino, chamado Rim, o qual deseja chegar ao planeta Tres para salvar sua mãe capturada pelo tirano que governa aquele sistema estelar.

Para induzir a tripulação da Sol Bianca a ajudá-lo ele conta que o tirano, chamado Imperador Batros, possui entre seus numerosos tesouros, um objeto lendário, o famigerado Gnosis, ou Arca de Ouro, dependendo da dublagem. Esse objeto conferiria a quem possuísse poderes inimagináveis, o portador seria uma espécie de deus, segundo a lenda. Esse fato entusiasma a tripulação a ajudar o garoto.



Mesmo que a sede por riquezas motivou a aventura, as belas piratas também se envolvem emocionalmente com a história do menino, e acabam lhe ajudando com sinceridade, fora dos interesses meramente materiais. Assim, elas partem para o Planeta Tres para enfrentar o Imperador Batros, ajudar o garoto, e principalmente capturar o tesouro inimaginável. Assim se desenlaça o primeiro episódio.

Depois de um primeiro episódio com uma história concisa, no segundo, as coisas começaram a complicar. Os produtores, esperando que Sol Bianca deslanchasse, acabaram por colocar no segundo episódio uma narrativa que demandaria mais episódios para se concretizar. Então, o segundo OVA de  Sol Bianca fica em aberto, sem uma definição, deixando muitos mistérios que nunca foram solucionados e provavelmente nunca serão, visto já se passarem uns bons 25 anos desde seu lançamento e nada, apenas um Remake que não deu continuidade ao clássico.



Para não dizer que o segundo episódio seja totalmente perdido, digo que ele fechou uma "aventura", com um começo, meio e um fim climático. Entretanto, pecou por deixar muitos mistérios no ar que seriam explorados nos episódios subsequentes que nunca ocorreram. Quanto ao enredo do segundo episódio, ele é um pouco confuso, ele começa com uma elaborada missão de roubar um mineral muito valioso de um rico comerciante e contrabandistas. Entretanto, nada sai como esperado.

As garotas do Sol Bianca se envolvem com grupos de mercenários vingativos e com a polícia espacial, acabam presas e envolvidas em uma confusa rede intrigas. Um homem que se diz conhecido da capitã Feb, de um longo passado, tendo "ressuscitado dos mortos" tenta levá-las para a sua nave, entretanto mais nenhum dado dele é informado. Paralelamente ocorre uma crise relacionada a June, outra tripulante, a qual, aparentemente possui uma ligação misteriosa com o passado da nave, talvez nem seja humana.



É revelado, o que já pode muito bem ser observado deste o primeiro episódio, que a nave Sol Bianca possui uma tecnologia muito elevada para os padrões humanos da época, e sua origem é envolta em muitos mistérios. Aparentemente foi encontrada pelas piratas junto com a tripulante June em seu interior. Entretanto, como dito acima, este mistério fica no ar, devido ao cancelamento dos OVAs, assim como muitos outros, como quem seria o homem misterioso do passado de Feb.

Finda o resumo dos dois episódios, pode ser verificada uma grande diferença entre os dois, o primeiro fecha uma história satisfatoriamente, enquanto o segundo episódio é uma mixórdia de tramas paralelas e mistérios não explorados. Mesmo que houvesse um terceiro episódio, ou mesmo mais, a forma abrupta como tudo ocorreu no segundo OVA contribuiu para confundir ainda mais quem estiver assistindo. Pode-se conjecturar que tal discrepância na qualidade se dê pela mudança do diretor.



Falando das personagens, a tripulação da nave Sol Bianca é bastante rica em personalidades variadas. Ela é composta pela capitã Feb, uma mulher misteriosa, calma e racional, que nunca larga sua taça de vinho, assombrando-me o fato dela sempre estar sóbria, o que, contudo, não impede de Feb ser uma líder muito competente. Depois temos a loira April, a primeira-oficial da Sol Bianca, e a personagem mais bem trabalhada em minha opinião, de personalidade protetiva, ela é a primeira em tomar as dores das outras tripulantes ou ajudar quem precisa, como o menino Rim, por isso ela sempre está envolvida nos acontecimentos da trama. Ainda mais, ela é uma combatente experiente e uma líder notável, quando Feb não está no comando.

Da tripulação temos ainda Janny, a mais cabeça quente e impulsiva do grupo e especialista em armas, sempre acaba brigando com June, devido seu temperamento explosivo. Janny também protagoniza os momentos mais divertidos dos OVAs. Temos também a já mencionada June, uma garota de personalidade um tanto egoísta e vaidosa, mas é uma expert em computação. O destaque vai para sua ligação misteriosa com a nave, em especial, com a inteligência artificial "G" que controla a nave. Por fim, temos a mais jovem das tripulantes, May, uma garota extrovertida que trata a tripulação como sua família, sendo uma especialista em engenharia.



Sol Bianca é uma obra que pega o clichê das aventuras espaciais, um tema bastante comum na indústria dos animes, mas possui suas qualidades que a destacam. A entrada do primeiro OVA chama a atenção, nossas heroínas em um timing perfeito abordando uma nave de contrabandistas e já mostrando para que vieram, com bastante ação. Destaque para o traje robótico da jovem May e pelo magnífico armamento da Sol Bianca, uma espécie de chicote ou fio de laser maleável que pode aparentemente cortar qualquer coisa.

Outro ponto interessante da obra foi a capitã Feb atirar com uma arma a partir do espaço e acertar um alvo físico no planeta! A nave Sol Bianca, por si só, é um espetáculo a parte. Ela conta com um sistema de armas bastante avançado. Mas, o que mais chama a atenção é o conforto e as comodidades dela! Sol Bianca possui áreas arborizadas, com direito a pequenas queda d'águas e tudo mais! Dá até para tomar sol! Um verdadeiro resort.




Contudo, o roteiro, seja do primeiro ou do segundo episódio, não é lá aquilo tudo. No primeiro episódio, foi utilizado um personagem muito comum nesse tipo de história: um governante despótico que escraviza a população de um planeta vizinho, obrigando-os a trabalhar em minas, escondendo uma enorme fortuna. Além disso, este governante organiza execuções públicas, que são um espetáculo bastante divertido para a população do planeta Tres. O vilão é confiante em relação ao seu poder, mas se mostra um covarde maluco quando sua posição de poder é prejudicada. Portanto, nada de muito inovador.

Existe, ainda, uma trama secundária, referente à libertação do Planeta Uno por meio de uma revolução liderada pelo pai de Rim, mas também não chega a ser grande coisa; servindo apenas para dar um fundamento sólido para as pretensões do moleque em salvar a mãe da tirania. O destaque vai realmente pelo conceito por trás do tesouro guardado pelo malvado tirano, a Gnosis. Agora é possível fazer um paralelo com o gnosticismo, até mesmo porque a obra Sol Bianca foi mencionada no artigo que traduzi sobre a influência do gnosticismo nos animes: Gnósticos Sonham Com Robôs Gigantes? O crescimento do gnosticismo nos animes japoneses. Parte 2.



A fim de analisar o gnosticismo da história, é necessário dar um spoiler. O tesouro Gnosis decepciona um pouco a cobiça das belas piratas, pois não é nada mais que um disco de armazenamento de dados guardando informações sobre o paradeiro da Terra, há muito perdida. Isto, dentro do gnosticismo, entraria no aspecto da "busca pela iluminação", do "paraíso perdido" e de alguns outros conceitos gnósticos. Este é tesouro muito mais importante do que qualquer bem material, como dinheiro ou metais preciosos. Infelizmente, além disso não há referências diretas sobre o gnosticismo.

Analisando o segundo episódio, como dito acima, verifica-se que faltou muita coisa para a obra terminar satisfatoriamente, já que o objetivo era dar continuidade. Mas, ao contrário do primeiro episódio de Sol Bianca, que terminou redondamente, o segundo empregou um ritmo mais acelerado e introduziu muitas dúvidas e mistérios na trama, deixando uma atmosfera de confusão. Só restou o gostinho de quero mais no sentido de esclarecer os eventos ocorridos e não explicados, pois o sentido não era gerar uma dúvida intencional, como ocorre em algumas obras, mas sim dar uma continuidade, o que não ocorreu.



Quanto à qualidade das personagens, em apenas dois episódios fica difícil dar uma profundidade psicológica, como ocorrem em obras de maior porte, mas dentro do esperado, é possível simpatizar com a tripulação na nave Sol Bianca. Todas as tripulantes possuem personalidades distintas e sua importância dentro do funcionamento da nave. Interessante o contraste entre a calma e calculista capitã Feb e a juvenil e barulhenta May.

No que concerne ao characther design, é o típico do período final dos anos 80 e começo dos 90. Cabelos bem coloridos (embora todas as sobrancelhas sejam pretas) e trajes igualmente coloridos. Não há muito o que falar. A ambientação também é típica de um anime espacial da época, com uma pegada levemente cyberpunk. O design da nave Sol Bianca ficou bem bonito. Quanto a trilha sonora, é o autêntico synthpop/rock da época, com uma batida eletrônica bem característica.



No geral, Sol Bianca não chega a ser uma obra memorável, alçando o status de um cult dos anos 80/90. Embora tenha tido potencial para isso. Infelizmente, por um motivo que não se sabe ao certo, provavelmente financeiro, a obra não foi continuada, perdendo o potencial para ser um clássico do gênero. Assim, ficam bastantes ressaltados os seus problemas de direção e de roteiro, como a queda de qualidade do primeiro para o segundo episódio.

Minha conclusão é que Sol Bianca é uma obra razoável, interessante a ser vista por aqueles que gostam de ficção científica da época, sobretudo aventuras espaciais, mesmo com os problemas apresentados. Por ser uma obra curta, digeri-la não é uma tarefa árdua, pois a tripulação da Sol Bianca é eficientemente qualificada para entreter quem estiver assistindo. Assim, minha análise temática fica por aqui. Espero que o blog "É só um Desenho" fique satisfeito com a minha abordagem sobre pirataria. Até a próxima.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...