terça-feira, 7 de julho de 2015

Mu-Kai. Por dentro do mundo da névoa.



Um roteiro intrincado de ficção científica em 33 páginas, um menino encontra uma garota em um mundo bizarro onde tudo está paralisado, exceto por eles, qual será o motivo? Isto resume Mu-Kai.


Mu-Kai, traduzido como mundo da névoa, é uma one-shot publicada em 28 de outubro de 2014 na revista Evening para celebrar a publicação do mangá Gunnm Mars Chronicle, de autoria de Yukito Kishiro, continuação do aclamado clássico cyberpunk Gunn (Battle Angel Alita para quem preferir) e de sua sequência Last Order, sendo Mu-kai, naturalmente, de autoria de Yukito Kishiro.

Contudo, Mu-Kai não é uma obra original de Yukito Kishiro, visto que este mangá foi baseado em uma estória de ficção-científica do aclamado (pelo menos no Japão) autor de ficção-científica Tobi Hirotaka, Umi no Yubi. Segundo informações contidas no próprio mangá ele é um autor que escreve exclusivamente ficção científica assim como Yukito Kishiro, tendo realizado sua estréia na literatura em 1982, mesmo não sendo um autor muito prolífico ele possui até mesmo um certo destaque mundial, Yukito elogia seu trabalho e descreve seu estilo como possuidor de muitas visões conseguindo transitar entre o terrível e o belo.

Tobi ambém ganhou diversos prêmios da literatura japonesa, como o Japan SF Taisho em 2005 e o Seiun Award em 2005 e 2010, que são os principais prêmios da literatura de ficção científica no Japão. Portanto Mu-Kai foi uma criação de dois grandes expoentes da ficção científica japonesa.

Mu-Kai embora inspirado na obra Umi no Yubi de Hirotaka Tobi não é uma adaptação fiel, Yukito Kishiro apenas criou um enredo no qual alguns conceitos abordados na referida obra continuasse em sua adaptação, permitindo creditar Tobi pela ideia central.




Em breve resumo Mu-Kai é uma rápida estória de ficção científica, onde Kenta, um garoto, perambula em um mundo onde tudo está fora do lugar e paralisado, aviões, navios, prédios, tudo está misturado e petrificado, formando vórtices, aparentemente somente Kenta pode se mexer. Além disso, as pessoas também estão paralisadas e são intangíveis.

Neste contexto Kenta escuta um choro e busca a origem do barulho e encontra numa casa uma menina chorando, se aproxima de forma a não assustá-la, a menina se chama Mika, então, os dois, como os únicos que podem se movimentar e interagir acabam por ficar juntos. No começo tudo parece uma brincadeira, aparentemente possuem muito bem todos os recursos para sobreviverem sozinho, e ambos acabam se tornando grande amigos.




Entretanto, após uma boa temporada de brincadeiras, ao longo da narrativa eles encontram outro personagem, um professor que aparentemente estava paralisado, mas apenas estava em uma velocidade muito lenta (aparentemente neste mundo há uma distorção na questão do espaço-tempo), com este encontro ambos ficam sabendo o que de fato ocorreu com o mundo real, sendo que esta dimensão em que estão no mundo real é vista como um oceano cinza que traga tudo que encosta transportando para tal dimensão, o "mundo da névoa".

Diante destas informações acabam se lembrando do passado e o deslumbre inicial se perde, Maki, por exemplo, sente saudade de casa e se lembra que foi tragada para este tal "mundo da névoa", buscando a todo custo sair desta dimensão, e é sabido também o que o as pessoas que estão no mundo real estão fazendo em relação a este outro mundo, como tentativas de resgatar quem fora tragado. Na metade final a narrativa se desenvolve na questão de ambos buscarem um meio de deixar esse mundo e a resolução da relação dos dois protagonistas, visto ter se desenvolvido uma forte amizade entre ambos.




A estória é narrada do ponto de vista de Kenta, sendo que é possível realizar algumas comparações, podendo considerar Kenta uma espécie de Peter-Pan, não na questão de não envelhecer, embora eu ache bastante plausível que naquela dimensão não ocorra envelhecimento. Mas bem, esse mundo, tanto para Kenta como para Maki, notadamente na primeira parte da estória, é um lugar para se divertirem onde não há regras nem adultos para dar ordens, o paraíso de qualquer criança, a liberdade para fazerem o que quiserem na hora que desejarem. Por exemplo, Kenta afirma que é bom não ter nenhum adulto para regular o fato de entrar calçado em casa. Inclusive eles montam uma habitação na palma de uma gigantesca estátua de Buda! Colocando uma barraca nela.

Embora Kenta num primeiro momento esnobe Maki, até lhe chamando de "bebê-chorona", a convivência criou laços profundos entre ambos, o que é reforçado pelo fato de terem somente um ao outro. Até mesmo quando conseguiram saber de algo por meio do velho professor, a conversação entre as crianças e ele levou muito tempo, visto o professor viver em câmera lenta. Neste tempo livre eles podiam se divertir até não aguentarem mais, o que é reforçado pelo fato de não existir dia nem noite e o tempo não passar, o que é sugerido pelo fato de todos os relógios se encontrarem parados.

Outro ponto relevante é o egoísmo de Kenta ao ler o bilhete na carta e descobrir que talvez o pai de Mika poderá resgatá-la, exitando se entregaria ou não o referido bilhete, mas tal sentimento é perfeitamente aceitável se analisado o contexto em que ambos os personagens se encontravam, praticamente um só possuía o outro e vice-e-versa e a perspectiva de ficar sozinho era aterradora, embora antes de conhecer Mika Kenta estava aparentemente sossegado levando uma vida de lobo solitário, contudo as coisas mudam quando são criados laços afetivos entre as pessoas.




Mu-kai além de parecer possuir um complexo enredo de ficção científica condensado em poucas páginas é relativamente bem pautado no desenvolvimento dos personagens sendo a "esperança" o tema central do enredo, a esperança de sair daquela dimensão paralela e a esperança do reencontro quando Mika é resgatada pelo seu pai e promete para Kenta que viraria uma cientista para resgatá-lo. Bastante tocante o quadro final onde Kenta afirma ser breve o momento que será resgatado e poderá reencontra sua grande companheira Mika.

A narrativa gira preponderantemente em torno do desenvolvimento dos personagens, não se esquecendo, claro, de abordar os aspectos de ficção científica de uma forma bem elucidativa na medida do possível, sendo notável a capacidade de Yukito de condensar tanta informação em apenas 33 páginas. Mas e o mais importante, a estória convenceu?

Primeiramente temos que levar em conta que são poucas páginas de estória, pouco mais de trinta, a limitação em desenvolver algo muito complexo é claramente perceptível, no entanto, para o que se propôs o mangá o resultado final fora bastante convincente. Rapidamente Yukito conseguiu construir um enredo envolvente, na medida do possível claro, apresentando de maneira acertada algumas explicações "científicas" sobre o ocorrido, usando o ardil de poder utilizar as memórias do velho professor.

Alguns conceitos pseudo-científicos abordados foram muito interessantes. O certo choque oriundo da descoberta de linhas de tempo paralelas por exemplo. A utilização de ondas sonoras como meio de criar distúrbios no mundo da névoa e propiciar que as coisas que foram tragadas pudessem regressar ao mundo real, interessante que a música utilizada para resgatar Mika é uma canção que sua mãe cantava.




Mu-Kai poderia ter sido uma obra maior? Ou bastou como one-shot. Bem, eu particularmente gostaria de poder ler mais um pouco sobre o tal "Mundo da névoa", sobre a natureza do Oceano Cinza, explorar um pouco mais detalhadamente as questões de espaço tempo alteradas e misturadas, bem como, claro, um maior desenvolvimento da relação dos personagens. Mas tal tipo de enredo é perigo e no caso de uma obra extensa poderia se perder facilmente, mas isso nunca saberemos, visto até o momento não existir nenhuma menção de que haverá mais algum material sobre tal obra, visto, como dito no início, se apenas um "bônus" da publicação de um novo mangá.

Embora eu tenha enumerado esses pontos positivos, e a one-shot tenha se fechado suficientemente "redonda" sem deixar dúvidas preponderantes no ar dispensando uma continuação, se prestar bastante atenção restaram algumas questões no ar, como o fato de os personagens estarem em linhas de tempo diversas, poderão ambos serem resgatados e habitar na mesma linha temporal do mundo real, ou o reencontro dos dois ficará para sempre prejudicado, embora Kenta, em uma bonita cena, demonstre os esforços de Mika para resgatá-lo por meio de sua coleção de garrafas que serviram como "Portadoras" de mensagens do mundo real. Relembrando que o mangá começa com tal coleção de garrafas e termina com ele, sendo uma espécie de "ciclo".

O que dizer sobre a arte do mangá? trata-se de uma obra de Yukito Kishiro autor de Gunnm, seus traços são muito bem acabados, as expressões faciais são esteticamente bem apuradas, suas cenas de ações são vívidas e fluídas, embora no mangá em questão não haja ação propriamente dita. Também é notável o avanço da arte de Yukito Kishiro ao longo do tempo, sendo perceptível o fato de que com o avanço dos anos seu traço abandonou aquela "aura" de anos 90, o que me faz sentir um tanto nostálgico, visto eu gostar bastante do traço de Gunnm Clássico.

Vi por aí críticas a esta obra pelo fato de que o autor não teria se "esforçado" e faltou capricho nos desenhos, sendo que por se uma one-shot se esperava mais apuro técnico e tal. Mas, segundo minha análise, esta one-shot não foi um mangá de "porrada" e portanto dispensa cenas elaboradas de ação. O character design ficou impecável se comparado com Gunnm e menos carregado de detalhes, o que faz sentido se observarmos que Mu-Kai é um conto de ficção científica protagonizado por crianças. Ainda ouso dizer que

Apesar de possuir algumas lacunas como as aqui apresentadas, Mu-Kai é uma obra válida, um rápido conto de ficção científica que você não levará muito tempo pra ler, apenas alguns minutos, visto não possuir nem 40 páginas. Então, boa leitura!



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