Planeta Fantástico. O Surrealismo Onírico de René Laloux.



Saindo do Japão, o novo post do Dissidência Pop embarca para uma viagem psicodélica pelo cinema experimental francês, mais especificamente para o clássico da animação "Planeta Fantástico" de 1973, icônico por abordar uma roupagem não tão infantil para uma animação com profunda temática filosófica. O filme foi dirigido por René Laloux, que foi um dos mais famosos diretores de animação francês, sendo sua fama em sua terra natal comparada com a de Hayao Miyazaki para os japoneses.


O filme Planeta Fantástico (La Planetè Sauvage, no original) narra em suma a história dos humanoides chamados Oms, os quais vivem como escravos ou animais de estimação dos gigantes azuis de olhos vermelhos denominados Draags. Em algum momento da história os humanoides Oms, aparentemente primitivos, foram capturados pelos Draags e levados para o seu planeta natal, onde se multiplicaram e muitos deles acabaram por viver de uma maneira selvagem, se tornando uma praga, um verdadeiro problema de saúde pública para os Draags.




O filme, além deste panorama geral, foca na vida de um Om chamado Terr, desde sua infância como bichinho de estimação de uma criança Draag até a vida adulta como um Om selvagem, após escapar da escravidão a partir de um dispositivo de aprendizagem Draag que lhe conferiu inteligência superior à de seus semelhantes. O filme também retrata magistralmente os curiosos costumes dos Draags, em especial a meditação, que faz parte de sua rotina, bem como o aumento expressivo do número de Oms, acarretando em uma campanha de "desumanização" e a consequente rebelião oriundo deste evento.


Um dos muitos métodos de desumanização


A clássica animação de ficção científica Planeta Fantástico, lançada em 1973 e dirigida por René Laloux foi baseada no livro "Oms en Série", escrito em 1957 pelo escritor francês de ficção científica Stefan Wul. O filme foi produzido mediante uma parceria francesa e checoslovaca (nem existe mais este país). Este filme foi um marco da história da animação, além da temática de ficção científica, percebe-se que fora voltado mais para um público adulto do que para crianças, diante da miríade de temas abordados. O estilo da animação também merece destaque, o filme foi animado em "Stop-Motion" sendo o design de autoria do renomado artista francês Roland Topor.

Planeta Fantástico inclusive ganhou o Prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes. Foi considerado na época uma obra prima instantânea, sendo facilmente comparado, diante da temática, com As Viagens de Gulliver e Planeta dos Macacos. Além do mais, já foi comentado que Planeta Fantástico seria um precursor de filmes como A Viagem de Chiriro e Princesa Mononoke, clássicos do Estúdio Ghibli dirigidos por Hayao Miyazaki. Não dá para dizer com certeza que Miyazaki se inspirou em Planeta Selvagem, mas o que pode ser dito é que René Laloux nutria uma admiração pelas animações do Estúdio Ghibli, em especial considerava O Túmulo dos Vagalumes uma obra- prima.




A arte visual do filme é um dos atrativos da animação, mesmo sendo da década de 70 e filmada em "stop-motion", o que impediu uma animação mais agitada e repleta de movimentação, os movimentos dos personagens são bastante fluentes e delicados. Os Draags, além da infinidade de vida alienígena, seja vegetal ou animal, explora os extremos da surrealidade, muitas vezes a animação foge dos personagens e foca calmamente na paisagem, com uma ou outra criatura interagindo de formas bizarras, seja no caminhar ou no ato de caçar uma presa. O mais próximo que se pode relacionar os seres e formas de Planeta Fantástico é com a obra surrealista de Hieronymus Bosch.

Estes aspectos visuais, juntamente com a trilha sonora, criam uma atmosfera genuinamente alienígena, poucas obras conseguem passar tamanha impressão de um mundo que não seja humano, sem quase nenhum de seus aspectos, algo que foge da compreensão do ser humano do que seja um planeta habitado por seres alienígenas tão singulares. A trilha sonora sinistra composta por Alain Coraguer ajuda neste aspecto "estranho" por ser repleta de temas industriais e psicodélicos, até mesmo metálicos, lembrando um bom e velho rock progressivo.



Como já mencionado, este filme possui uma abordagem bastante pesada, não sendo uma animação voltada para o público infanto-juvenil, bem como não possui uma animação veloz ou fluídas cenas de ação de tirar o fôlego como de filmes modernos. Tudo avança muito lentamente. Inicialmente se pode ter uma falsa impressão de que o filme não flui, entretanto ele entrega tudo que promete, de forma contínua e cadenciada, em um avanço suave, seja da animação surrealista ou da trilha sonora hipnótica.

E devo dizer que esse filme é bastante sinistro, a trilha sonora por si só causa arrepios, os quais são intensificados quando se assiste o filme, isto que não é um filme de terror! Mas passa a quem está assistindo uma carga pesada em seus ombros, uma pressão, ou melhor, uma opressão. O que não é particularmente ruim, é justamente o mais atraente. O filme consegue ser bastante atraente mesmo dando uma impressão de frieza e afastamento alienígena.



Declaradamente Planeta Fantástico é um filme alegórico que quer ser mais que uma simples animação. Muitos fazem o paralelo da história do filme como a nossa relação com os animais, notadamente alguns que são por vezes considerados pragas, como formigas. Os Draags esmagam, trucidam, utilizam todo o meio possível, equipamentos mais surreais e oníricos possíveis para eliminar todos os Oms selvagens, que são considerados pragas.

Já no começo do filme vislumbramos uma cena bizarra, cruel e de certa forma bem-humorada se elevarmos em conta que fazemos o mesmo tipo de coisa no planeta Terra, porém, com os animais. Duas crianças Draags estão brincando com uma mulher e uma criança Om, assim como se brinca com um bicho qualquer. As crianças são das mais levadas, usam de violência e não tem consideração para com o ser vivo. A brincadeira acabou por matar a mulher. Neste meio tempo se aproxima um adulto importante e sua filha, também Draags, e as crianças se escondem para não levarem uma bronca.



A filha então ouve um discurso do pai sobre responsabilidade com os animais e tem a permissão de adotar o Om sobrevivente, um filhote que acaba por virar o protagonista: Terr. Como observado, isto é cena que poderia ocorrer em qualquer lugar da Terra. Isso serve para já situar quem estiver assistindo na dinâmica do filme: Draags são a raça dominante, como os humanos na Terra, e os Oms são como animais irracionais, ora sendo bichos de estimação, ora sendo pragas quando se reproduzem desordenadamente fora do controle Draag.

O interessante é que com o passar do tempo os Oms aprendem e se desenvolvem tecnologicamente mediante a aprendizagem das ciências dos Draags, em especial a capacidade de ler, por meio da tiara do aprendizado furtado por Terr. E com esta nova inteligência adquirida, os Oms, ao invés de buscar uma solução pacífica para os seus problemas com os Draags, que os consideram animais irracionais, partem para violência tão ou mais extrema como a apresentada pelos seus rivais. Aqui se ressalta brilhantemente o problema de muitas revoluções, acabam por se tornar algo corrompido, assim como em A Revolução dos Bichos de George Orwell.



Outro aspecto interessantíssimo é o fato dos Draags, surpreendidos pela evolução contínua e acelerada dos Oms, agirem de forma violenta e irracional para resolver o problema, o que, num primeiro momento, parece ir contra os seus princípios, já que são uma raça avançadíssima, com tecnologia vasta, além de serem espiritualmente voltados para experiências de meditação e viagens oníricas.

Neste ponto do avanço dos Oms é que chegamos em uma das questões filosóficas mais curiosas do filme: a noção do tempo. O que é tempo? Mais especificamente, a noção de tempo é relativa, ou existe um único tempo? Os Oms e os Draags vivem com noções temporais distintas. Por exemplo, um dia de um Draag são anos para os Oms. Isto que propiciou a rápida evolução dos Oms, quando os Draags, a título de exemplo, decidiam que amanhã iriam desumanizar o parque, os Oms tinham anos para se prepararem.



Mas essa interpretação dos seres humanos serem dominados por criaturas mais fortes, fazendo um paralelo com a maneira na qual nós tratamos as criaturas mais fracas de nosso planeta, não é a única interpretação possível para este filme. Além desta camada facilmente identificável, pode-se destacar que o filme se apresenta num subgênero do cinema que surgiu em meados da década de 70, filmes de ficção científica que abordam temas gnósticos. Claramente, os Oms são seres humanos que em algum momento da história regrediram e se tornam primitivos, tendo continuamente que resgatar a essência perdida no sentido de escapar da tirania dos Draags.

Explicando melhor, neste tipo de filme ocorre geralmente um tipo de abordagem com alguma variação. Por exemplo, o alienígena cai na Terra e é vítima da tirania humana, ou, ainda há a possibilidade dos humanos encontrarem vida alienígena, com uma tecnologia avançada, mas isso não garante que eles sejam bonzinhos, podem ser seres que resolvam dominar os seres humanos sem nenhum remorso. Ou seja, neste segmento de filmes é apresentado um futuro desanimador para as viagens espaciais e contatos com outras formas de vida inteligentes.



Outro aspecto recorrente neste cinema de ficção científica da década de 70, é a trilha sonora, repleta de rock progressivo e surrealismo. Muitos artistas como David Bowie, colaboraram bastante para a popularização deste tipo pessimista de futuro da humanidade, podendo citar até mesmo o filme no qual atuou Bowie, O Homem que Caiu na Terra de 1976, onde um alienígena na Terra, entra no mundo dos negócios e é corrompido pelos seres humanos.

Também há os que dizem que Planeta Fantástico é uma alegoria à Guerra Fria, em especial a situação da Checoslováquia na época, quando da sua invasão pela União Soviética, compara o jugo dos soviéticos com o tratamento dado pelos Draags aos Oms. Mas isto é somente especulação, não há nenhuma prova que embase que o filme realmente seja uma crítica política tão específica.



E quanto ao desfecho do filme? Primoroso! De uma longa construção de uma situação de conflito sangrento inevitável, onde muito provavelmente todos morreriam, para uma solução simples e óbvia! Mas, nos seus paralelos com o mundo real, a solução mais simples geralmente nunca é a alcançada, o ser humano tenta a todo custo cada vez mais problematizar e complicar tudo. O final do filme é abrupto, o desfecho é despejado em sua mente para processá-lo, enquanto você tenta situá-lo logicamente no contexto do filme, este já acabou!

Planeta Fantástico marcou seu nome na história por adaptar um livro e criar uma história de ficção científica tão singular. Velhos anos 70 onde o cinema se propunha a ser mais experimental e menos comercial, permitindo diretores criativos como René Laloux deixar sua criatividade fluir livremente numa obra de particularidades tão marcantes. Planeta Fantástico é um filme que deve ser assistido muitas vezes para que se consiga captar todas as suas nuances e camadas.




Chegamos ao final desta postagem, apresento a conclusão. Definitivamente Planeta Fantástico não é um filme que agrada as massas, seu estilo de animação e direção surreal e onírico foge dos lugares-comuns da animação. Mesmo assim, Planeta Fantástico não foi jogado ao esquecimento como tantos filmes experimentais o são, o que comprova sua qualidade, repercutindo sua influência até hoje. Inclusive por ter ganhado uma premiação no festival de Cannes. Assim, o filme, mesmo que se passe décadas pode ser considerado uma inovação, dificilmente ficando datada, alçando o patamar de obra-prima.





Deixo o seguinte vídeo para vocês aproveitarem a fantástica trilha sonora do filme:







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