quarta-feira, 21 de junho de 2017

Serial Experiments Lain: o anime que previu o futuro da internet



Olá leitores do Dissidência Pop, sou o novo colaborador e utilizarei o pseudônimo de Camaleão Daltônico. Acompanho o blog há cerca de dois anos, e é um enorme prazer para mim poder contribuir na divulgação de obras excêntricas. Sou particularmente fã daquelas capazes de prender a atenção não só quando são lidas ou assistidas, mas também após o seu momento de consumo, por meio de discussões existenciais geradas por elas ou por traços artísticos marcantes. Espero do fundo do coração que apreciem os textos e ideias que trarei para este blog, então aproveitem minha estreia a seguir com uma análise do anime Serial Experiments Lain.

O anime


Serial Experimentes Lain, por vezes abreviado SEL, é um anime que foi lançado em 1998, sendo dirigido por Ryutaro Nakamura, e se enquadra nos gêneros cyberpunk e sci-fi. Atualmente, possui status de cult, sendo idolatrado por diversos fãs na internet, embora não seja tão popular quanto a maioria das produções mainstream. Trata-se de um anime que deve ser assistido com toda a atenção, pois acompanhar sua estória pode ser uma tarefa difícil mesmo para um observador atento. 

O anime assemelha-se a obras como Angel’s Egg e Neon Genesis Evangelion no sentido em que procura gerar discussão sobre certos conceitos filosóficos, fazendo muitas vezes uso de comunicação não verbal e do conhecimento de mundo do expectador para tal. Devido a tais motivos, não é um anime para todos, pois aqueles que preferem tramas focadas na ação, por exemplo, podem não apreciar a experiência. 

Estamos falando de uma produção feita em 1998, quando a internet ainda era jovem, e que surpreendentemente foi capaz de fazer modestas previsões sobre tal meio de comunicação, tais como a dependência de diversas pessoas para com esta, bem como a maneira como os usuários alteram sua personalidade quando se encontram conectados, cuja representação é a própria protagonista, a qual assume diferentes personalidades na rede. Vale também citar as semelhanças entre o grupo de hackers anônimos do anime, conhecidos como Cavaleiros do Cálculo Oriental (por vezes chamados aqui de Knights), e o grupo Anonymous, existente atualmente. 


Na Wired, a maioria dos usuários não são capazes de representar seus corpos totalmente. Isso pode ser entendido como uma referência ao fato de que as pessoas mostram apenas partes de si mesmas quando estão na internet.




A estória do anime se inicia quando várias garotas do colégio em que a protagonista LainIwakura estuda recebem e-mails da estudante Chiisa Yamoeda, a qual supostamente havia cometido suicídio uma semana antes. Tais ocorrências despertam a curiosidade de nossa heroína, a qual decide verificar se também recebeu um destes. De fato, Lain recebeu um email da garota falecida, no qual esta afirma não precisar mais de seu corpo físico e que havia encontrado Deus na Wired (internet do anime).

Após o ocorrido, Lain pede um novo Navi (como se chamam os computadores no mundo) para seu pai, com o intuito de explorar um Wired, coisa que este aceita prontamente. Conforme Lain se aprofunda no território desconhecido, se envolve em inúmeras situações bizarras, tanto no mundo real quanto na rede, como quais colocam em xeque sua noção de realidade e crenças mais profundas.


Lain faz diversos upgrades  em seu Navi no decorrer do anime

Infelizmente, para que possamos discutir os temas filosóficos presentes no anime, não só teremos que dar spoilers, como teremos que explicar praticamente toda a história!  Isso se deve ao fato de que apenas entender o que aconteceu já é uma tarefa difícil. Caso você ainda não tenha visto o anime, leia as próximas seções por sua conta e risco. Entretanto, recomendo fortemente que assista a essa obra maravilhosa, pois ela será capaz de lhe proporcionar muito mais informação do que este simples texto.

A Estória resumida


A estória do anime é basicamente a seguinte: Masami Eiri, funcionário da empresa Tachibana General Labs desejava unir o mundo real à Wired, criando uma nova existência em que seria um deus. Para fazê-lo, criou o Protocolo 7 (Lain) juntando o inconsciente coletivo presente na Wired, e em seguida deu-lhe um ego, um corpo e uma família. 

No decorrer da série, Lain vai descobrindo sua verdadeira natureza aos poucos. Deve-se notar que o anime oferece pistas para isto, tais como os momentos em que ela “sai de seu corpo” nos primeiros episódios ou as referências a tal fato feitas por outros personagens, os quais afirmam diversas vezes que Lain é onipresente.

Posteriormente, é revelado que Lain possui pelo menos 3 personalidades, sendo estas: Lain normal, Lain da Wired e Evil Lain (também chamada de Lain maligna). A primeira é a que nos foi introduzida no início da série, a segunda se manifesta na Wired ou em momentos de estresse no mundo físico, e a terceira é maligna, como o próprio nome já diz, e não se sabe ao certo se surgiu espontaneamente ou foi criada pelos knights (seguidores de Eiri). 

A terceira Personalidade de Lain, su origem não foi explicitada no anime.

A terceira personalidade espalha boatos sobre o relacionamento de Arisu, melhor amiga de Lain, com um professor, por simples maldade. Entretanto, a personalidade original não tem consciência das ações da outra, e resolve checar suas memórias para confirmar isto. Após constatar as maldades de sua outra versão, ela tem uma conversa com Deus (Eiri), onde ele revela que ela possui o poder de deletar as informações sobre tal fato da mente das pessoas, em última estância, alterando a realidade. Entretanto, isto não resolve o problema, visto que as garotas passam a interagir com uma outra Lain diferente da original.

Em seguida, Lain tem outra conversa com Deus. Em tal diálogo, ele revela como veio a se tornar a divindade da Wired e em seguida afirma que ela não precisa mais de um corpo, nem viver no mundo real. Após isto, a protagonista volta para sua sala de aula, apenas para descobrir que não existe mais lá, uma vez que ninguém de sua classe crê em sua existência. Arrasada, ela vai para casa em busca de conforto, onde seu “pai” finalmente revela que ela nunca possuiu uma família. Irritada com isso tudo, ela decide se vingar de Deus eliminando os Cavaleiros do Cálculo Oriental, consequentemente privando-o de seguidores, o que faria com que este perdesse seu status de divindade. 

Conversa de Lain com Deus. Neste diálogo é necessário inverter as falas dos dois.

Depois de tal série de eventos, ocorre um novo diálogo entre Deus e Lain, no qual este diz que apenas um crente é o bastante para que continue sendo uma divindade. Em seguida afirma que enquanto ela é esse último adorador, e enquanto ela crer nele, ele continuará sendo um deus.

Após isso, Lain altera a realidade novamente, fazendo com que desta vez o professor citado anteriormente estivesse envolvido com outra garota, mas mantém as memórias de Arisu intactas e em seguida comunica a ela o que fez, fazendo com que esta se dirija à casa de Lain para averiguar o que está acontecendo. Chegando lá, encontra sua amiga imersa em seu computador, que agora ocupa o quarto inteiro, e esta diz que pretende destruir a barreira entre os dois mundos e que seres humanos são apenas software (pensamentos) e não precisam de corpos. Após conversarem, Arisu consegue convencê-la da importância dos corpos físicos. 

No meio do diálogo, Deus aparece novamente e afirma que Lain deve ter um defeito, e que irá repará-la. Entretanto, desta vez nossa heroína confronta a onipotência de Eiri, relembrando-lhe de que este precisou das tecnologias anteriores à Wired para criar sua realidade, e que nem mesmo tal ideia foi concebida originalmente por ele. Enfurecido, este cria um grotesco corpo físico para tentar matar as duas, mas Lain consegue esmagá-lo contra seu computador, matando-o. 

Depois de provocado, Deus ataca as duas meninas.

Arisu fica traumatizada com tal evento, e Lain resolve resetar o mundo novamente, ato representado através do pressionar de um botão “Return” em uma tela que lembra um gameover de videogame.  Somos então apresentados à situação dos personagens na nova realidade, na qual todos estão felizes, mas Lain não existe, sendo apenas uma observadora. Ocorre então um diálogo entre duas Lains sobre a natureza de tudo o que ocorreu, e em seguida ela tem uma conversa com uma imagem de seu pai em um lugar que lembra o céu. O anime se encerra com Lain aparecendo para Arisu no futuro, e embora ela não se lembre de sua antiga amiga, esta expressa felicidade, e Lain diz que as duas sempre estarão juntas. 


Conversa de Lain com a imagem de seu pai no último episódio


Observações

Primeiramente, gostaria de ressaltar o fato de que não é explicitado no anime por que Eiri precisava que Lain o adorasse nem por que ela deveria deixar seu corpo. É possível interpretar que Lain na verdade era uma deusa antes dos eventos do anime, e decidiu tentar viver uma vida normal, mas Eiri, de alguma forma descobriu isto e tentou manipulá-la para tornar-se um deus. 

Entretanto, apesar de interessante, esta não será a versão abordada, pois não há informação suficiente para concluir isto no anime. Embora essa tese explique o porquê exato de Lain ter uma vida “normal” no começo do anime e o plano do antagonista, simplesmente fica em aberto o motivo de a divindade ter feito isto e como Eiri descobriu tal fato.

Devido a tais motivos, a tese abordada será a seguinte: Eiri criou o Protocolo 7 com consciência, mas precisava ter controle sobre este para se tornar um deus. Como tal programa também representa o inconsciente coletivo, resolveu criar-lhe uma vida falsa em uma família normal, para em seguida minar seu psicológico e fazê-lo desistir do mundo físico, ao mesmo tempo em que se ancoraria em Eiri, fortalecendo a posição deste como divindade. Deve-se notar que nenhuma das teorias explica com precisão a origem de Evil Lain, que pode ter sido gerada pela própria Lain ou criada pelos seguidores do vilão para atingir seus objetivos.


 Interpretações


Lain como o inconsciente coletivo/internet


Segundo a história do anime analisada neste texto, Lain é o Protoclo 7 criado por Eiri misturando o inconsciente coletivo presente na Wired. Tal fato pode levar à natural interpretação de Lain como uma representação das diversas ideias presentes no pensamento coletivo da comunidade digital, e isto explicaria suas várias personalidades. Tal interpretação também traz sentido à cena em que Eiri afirma que vários fantoches de Lain são também ela, pois são diferentes pontos de vista presentes na rede.

Assumindo tal teoria como verdade, pode-se interpretar Eiri, os Cavaleiros do Cálculo Oriental e a empresa Tachibana General Labs como as diferentes facções que lutam para ter o controle do inconsciente coletivo na internet, tais como grupos ideológicos ou empresas, os quais, por vezes criam versões diferentes deste, tentando manipulá-lo sem sucesso. Em última estância, é observado no anime que estes são derrotados por Lain, que detém o poder real, ou seja, pode-se interpretar tal fato como a concepção de que, embora alguns tentem manipular o pensamento da internet, o pensamento livre sempre prevalecerá, pois possui o poder verdadeiro.

O anticristo


Pode-se facilmente comparar Serial Experiments Lain ao mito bíblico do anticristo. Muitas pessoas deixam de lado tal visão por se tratar de algo relacionado a religião, enquanto outras (como eu) simplesmente acreditam que esta não foi a mensagem do criador da obra. De qualquer maneira, continua válido citá-la.

Pois bem: é possível interpretar SEL como uma analogia ao mito do anticristo presente no Novo testamento, em que, após uma época de crises, o mundo é unido sob o governo mundial de um homem que afirma ser o enviado de Deus. Este homem seria inicialmente bondoso e generoso, mas, uma vez no poder, passará a oprimir a todos e semeará a guerra novamente. Tal indivíduo contaria com o apoio de uma besta, a qual muitos da antiguidade interpretaram como sendo uma analogia ao império romano, e que pode ser entendida como uma grande organização que facilitaria a opressão causada pelo Anticristo.

Em SEL é perfeitamente possível entender Masami Eiri como o anticristo, que desejava se tornar uma divindade no lugar do verdadeiro salvador, Tachibana General Labs/Cavaleiros do Cálculo Oriental como a besta e a falsa Lain criada por estes como o Falso Profeta que precederia o governo do anticristo. Assumindo isso como verdade, temos Lain como sendo uma representação de Jesus Cristo, e poder-se-ia ir mais longe e pensar na imagem de seu pai com a qual esta conversa no final do anime como sendo Deus Pai. Entretanto, assim como afirmado anteriormente, embora seja inteiramente plausível entender a história do anime desta forma, duvido seriamente de que o criador desejasse que este fosse interpretado assim.

Aparição de Lain no céu, durante o episódio 5. É difícil não relacionar tal imagem com conceitos cristãos.


Temas filosóficos

Informação


O tema mais discutido em SEL é, de longe, a informação, e como a percepção da realidade depende das informações que obtemos.  Deve-se notar também que um mesmo evento pode ser entendido de diferentes formas por diferentes pessoas, devido tanto a ideias (informações possuídas) anteriores ou ao contexto em que foi observado. Como exemplo, acredito que o anime em questão seja um caso perfeito, uma vez que SEL pode ser assistido do mesmo modo por duas pessoas e a percepção de cada uma sobre as mensagens deste pode variar imensamente.

Associados a este conceito estão quase todos os outros a seguir e, embora esta seção seja a menor, isto em realidade se deve ao fato de este ser o tema principal da obra e ter sido dividido para não tornar a leitura cansativa.

Comunicação


Entendemos como comunicação a troca de informações, porém, como afirmado anteriormente, uma mesma mensagem pode ser interpretada de diferentes maneiras por diferentes pessoas, ou seja, a cada momento que uma mensagem é passada entre dois indivíduos, há uma chance de as ideias principais que desejavam ser transmitidas tenham se perdido. Embora tal tema não tenha sido realmente focado no anime, é praticamente impossível discutir o conceito de informação sem o de trânsito de informação, definido como comunicação. 

As principais perguntas geradas por tal divagação são: Existe comunicação de verdade, isto é, é possível passar exatamente a mesma ideia entre dois indivíduos? Será que dois indivíduos possuem ideias exatamente iguais em suas mentes? Não sou capaz de fornecer respostas, portanto, convido o leitor a divagar sobre o tema.

Realidade


O que pode ser definido como realidade? A definição mais natural seria “tudo o que pode ser observado por nossos sentidos”, o que implicaria que a realidade na verdade é a informação captada por nossos sentidos. Como tais informações são impulsos eletromagnéticos sentidos em nossos cérebros, se controlarmos tais reações presentes nos neurônios de alguém, teríamos controle sobre a realidade de tal indivíduo.

Tal discussão entra em choque com a concepção que várias pessoas possuem da realidade como algo objetivo e independente do observador. Aqui não se deseja chegar a nenhuma resposta, apenas fomentar a dúvida. Pois bem, pensemos desta forma, se não há como provar a existência de algo (aqui tal prova será restringida aos sentidos), então, exceto por fé, não acreditaremos na existência de tal coisa, portanto, para nós, o objeto em questão não existiria. Como implicação de tal raciocínio, temos que, até que um objeto seja observado por alguém, ele não existirá para ninguém. Pensando desta forma, um mundo sem mentes não teria por quem ser sentido, portanto não existiria para ninguém, e consequentemente não existiria. Fica aqui a reflexão.

A visão oferecida por SEL é a de que a realidade depende de nossa percepção e de nossas informações, e que é um conceito que pode porventura ser mudado. Isso pode ser facilmente observado nos trechos em que se afirma: “se algo ou alguém não é lembrado, então esse algo/alguém nunca existiu”. Além disso, podemos citar, como exemplo, a cena em que Eiri afirma que, para ser um deus, é necessário que alguém acredite nele, ou seja, mesmo sendo poderoso, só será considerado um deus se outro indivíduo crer nele como tal. Um outro exemplo seria a realidade de Lain antes de descobrir a verdade: toda a vida que esta acreditava possuir na verdade eram memórias falsas. Elas eram sua realidade, a qual mudou no momento em que descobriu sua verdadeira origem. 

Ilustração do Mito da Caverna, de Platão

Quando se discute sobre tal tema, é praticamente impossível não pensar no Mito da Caverna de Platão, o qual se encontra intimamente relacionado aos conceitos gnósticos que serão brevemente discutidos a seguir. Este não será narrado na íntegra, apenas se discutirá o conceito de realidade associada ao conhecimento presente neste: Para os prisioneiros da caverna, o mundo real era o lugar em que viviam, enquanto isto mudou para aquele que saiu. É fácil afirmar que o mundo “real” é o lado de fora, mas há um pequeno detalhe: todos estamos do lado de fora, porém, se estivéssemos na situação proposta, nosso mundo verdadeiro seria a caverna em que habitaríamos. Ou seja, em última estância, nossa realidade depende de nossa percepção, e podemos neste momento estar imersos em uma realidade falsa, mas que, para nós, é a verdadeira.


Um pequeno trecho da abertura em que o conceito de realidade dependente do observador se mostra: Temos que o chapéu de Lain fica estático após ter saído de seu campo de visão, ou seja, quando Lain para de observá-lo, ele deixa de existir para ela.




Com tais conceitos em mente, podemos ainda relacioná-los com algo que ocorre atualmente, mas que de alguma forma SEL foi capaz de prever: o vício em internet. Várias pessoas passam mais tempo no computador do que fora deste (atualmente eu sou uma destas), e para algumas não é errado afirmar que a realidade para elas é a internet, a qual ocupa um plano superior em relação ao mundo físico para eles.

É perfeitamente possível se pensar na realidade como algo exterior e independente do indivíduo, entretanto, oferecer uma definição precisa para tal conceito baseado nessa tese não é algo fácil. Portanto, convido aos leitores que debatam se a realidade depende da percepção ou é exterior ao indivíduo, bem como incentivo a procura de uma melhor definição para esta.

Gnosticismo


Embora o artigo “Gnósticos sonham com robôs gigantes?” postado anteriormente no blog, já tenha entrado com mais detalhes nesta parte, achei válido citar tal tema novamente, todavia, apoio fortemente sua leitura. Nos mitos gnósticos, temos basicamente que existem dois mundos: o perfeito, chamado de Pleroma, e o nosso, material e imperfeito. O Pleroma foi criado por uma divindade sem falhas, enquanto o nosso foi gerado por uma entidade menor, o Demiurgo, o qual tentou imitar a criação superior, mas sem sucesso. As histórias dos mitos normalmente narram a busca de um indivíduo pelo conhecimento verdadeiro (gnosis) e acesso ao mundo perfeito. É interessante notar a relação direta entre tal linha de pensamento e o Mito da Caverna, citado anteriormente.

Poder


Como definimos poder? Iremos novamente pensar na versão intuitiva desta ideia. Dizemos que podemos algo se somos capazes de gerar tal coisa, seja isto um objeto ou uma ação. A isto se associa a ideia de alterar a realidade: quando se deseja cozinhar algo, por exemplo, basta utilizar o equipamento necessário e as características do alimento mudam de acordo com o que foi feito – foi feita uma alteração na realidade. 

Se definirmos realidade como aquilo que percebemos pelos sentidos, então ela depende do observador. Sendo assim, pode-se alterar a realidade de alguém sem interagir diretamente com o mundo físico, apenas modificando as ideias/memórias presentes na pessoa em questão. Por este motivo, quando alguém possui poder sobre a informação, este alguém possui também poder sobre a realidade dos indivíduos que influencia. Isso pode ser facilmente percebido nas sequências em que Lain altera a realidade através da modificação das memórias das outras pessoas, ou mesmo em sua própria vida: Eiri alterou a realidade dela manipulando apenas as informações que ela possuía.

É válido citar como exemplo do poder da informação o famoso Caso Roswell, citado em SEL no episódio 9, em que um incidente relacionado à extraterrestres cuja existência nunca fora provada é tido como verdade por muitos. Vale também citar a frase proferida pelo narrador do anime na sequência em que relata tal evento: “[...]Conjectura se tornou fato, e rumores se tornaram história[...]”.

Podemos observar também o poder sobre a informação no próprio mundo real: temos que diversos meios de comunicação, além de influenciar o comportamento de pessoas, são capazes de fazer seus leitores acreditarem em fatos que não ocorreram de fato, alterando assim a realidade para tais indivíduos.

Identidade


Foram discutidos anteriormente os conceitos de informação e de realidade, pois bem, seguindo nossa linha de raciocínio, temos que, para que algo exista, tem que ser observado por alguém. Desta maneira, para que um ser exista, deve ser percebido por alguém. Seguindo linha similar de raciocínio o filósofo René Descartes proferiu sua famosa frase “Penso, logo existo”, em que expressa uma ideia que é tanto inegável quanto preliminar a todas as outras, ou seja, é simplesmente impossível um indivíduo negar sua própria existência, e, além disso, este possui tal concepção desde sua origem.

Ou seja, um ser que existe, mesmo que de uma maneira inconsciente, tem a ideia de existência própria praticamente desde seu nascimento, coisa que este constata diferenciando-se do meio em que habita. Desta maneira, podemos pelo menos provar a existência do ser (ufa pelo menos isso existe!), mas assim como os outros conceitos discutidos, este também é relativo. Isso se deve ao fato de que um mesmo conjunto de informações pode ser percebido de diferentes maneiras: ora, assumindo isto como verdade, um mesmo indivíduo pode ser observado por dois outros e estes podem vir a ter ideias completamente opostas sobre o observado. 

Pensando desta forma, é válido afirmar que o que um indivíduo chama de “eu” é algo que vale apenas para si mesmo, pois existe uma versão sua diferente na mente de cada um dos outros com os quais este interagiu. Isso pode ser observado na cena em que Lain encontra diversos manequins moldados à sua semelhança, e Deus afirma que eles são apenas diferentes versões dela: são diferentes concepções de uma mesma pessoa gerada na mente de outros.

Vale ressaltar um ponto: até aqui se discutiu o conceito de identidade, que pode ser associado à existência de um ser e de sua diferenciação para com os outros e com o meio em que existe. Podemos tomar como noção intuitiva de identidade o próprio documento, cuja função é justamente diferenciar e identificar pessoas. Entretanto, não se discutiu do que se trata ser um ser. Como o anime não focou nesta parte em específico, sugiro que a seção de comentários do post faça o contrário.

Entretanto, SEL chega a tocar, mesmo que não muito, em um dos desdobramentos do conceito discutido anteriormente – trata-se da famosa pergunta: O que define um ser humano? Será que seres humanos são de fato apenas software e não precisam de corpos? Se sim, então um computador, feito de metal, que seja capaz de pensar como um, será então considerado um ser humano ou não? Tal tema se encontra presente em diversas obras sci-fi, e chega até a ser irônico o fato de este não ter sido abordado a fundo na obra, pois a protagonista, em torno do qual a série gira é uma Inteligência Artificial, um programa pensante (obviamente, com base na interpretação escolhida). Ela é um ser humano ou não? Por quê? Se não, então o que define um ser humano?

Divindade


Em um dos diálogos entre Lain e Eiri, é discutida o conceito de divindade, a qual Eiri conclui como sendo um ser onipresente. Tal conceito se encontra normalmente relacionado à ideia de criação, e na maioria dos casos uma divindade é a responsável por isto, entretanto, isso não se aplica a todos os casos. Pode-se também pensar em um deus como um ser onipotente, todavia, tal concepção se encontra intimamente ligada ao monoteísmo, e nem todas as divindades existentes se enquadram nesta categoria. 

Embora a conversa do anime tenha se encerrado concluindo que uma divindade é um ser onipresente, a característica observada em todas as divindades não é de fato esta e sim a de um ser superior ao homem. De fato, um ser que seja onipresente, criador de tudo, ou onipotente, naturalmente seria superior ao homem, entretanto, o caso mais geral observado por mim é este. Sugiro discutir a definição e o conceito nos comentários, haja visto que este é um tema deveras subjetivo, talvez até mais do que os demais.

*Bônus: vamos supor que existe um deus que não é o criador do universo, mas é onipotente. Mesmo que ele não tenha criado o universo, como é onipotente, ele pode tudo que se possa imaginar, e, portanto, pode se tornar o criador do universo. Apenas uma pequena divagação que veio a mim enquanto escrevia sobre o tema.

Considerações finais


Esse foi Serial Experiments Lain, um anime que pode ser interpretado de várias maneiras diferentes, e cujas discussões poderiam facilmente gerar material para um texto muito maior. Espero que eu tenha sido capaz de clarear algumas coisas para alguns, e fomentar a discussão em outros. Se você não entendeu a estória de primeira, então assista de novo, e de novo, e de novo (se você aguentar, claro!), pois uma hora as coisas ficarão claras. Se porventura o leitor também viu a obra, mas possui uma visão diferente da minha, ou discorde das ideias apresentadas, convido-o que inicie uma discussão nos comentários. Com tais considerações me despeço, para talvez nos encontrarmos em artigos futuros.



Uma imagem ilustrativa do artbook  An Omnipresence in Wired, o qual foi postado anteriormente no blog. Recomendo também a leitura do referido post, uma vez que lá se encontra também o one-shot Nightmare of Fabrication, o qual provavelmente será apreciado por aqueles que gostaram do anime.



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