domingo, 17 de setembro de 2017

Daidai wa, Hantoumei ni Nidone suru - A normalidade do extraordinário.


Daidai wa, Hantoumei ni Nidone suru não é apenas um mangá bizarro pelo nome nada usual, que pode ser traduzido como "Laranja Amarga, Translúcida ela Volta a Dormir", ele é estranho por si mesmo, como todas as obras do mangaká Youichi Abe. Se você se interessa por humor negro, vida marinha alienígena, drama escolar em uma pequena cidade pesqueira, tudo unido por uma série de one-shots interconectadas, acrescidas de uma arte diferenciada e um mundo muito non-sense, Dadai wa é uma boa pedida.



Primeiramente vamos aos aspectos técnicos de Dadai Wa (chamarei assim já que o nome é imenso). É um mangá composto de dois volumes, contabilizando 15 capítulos, publicados de 09 de abril de  2013 até 9 de novembro 2015 na revista Bessatsu Shounen Magazine, lar de mangás famosos como Shingeki no Kyojin, Sankarea, Aku no Hana e Koe no Katachi. Essa é uma revista voltada para a demografia shounen, mas que possui obras que muito bem poderiam ser classificadas como um seinen, como é o caso de Dadai Wa.

O autor, Youichi Abe, é um artista muito excêntrico, seu mangá mais famoso é Chimoguri Ringo to Kingyobachi Otoko e é sobre uma garota que tem que salvar pessoas de vivarem peixes-dourados, além de outras bizarrices. Ele ainda não é um mangaká muito famoso, mas sem sombra de dúvidas suas obras merecem a atenção pelo conteúdo bizarro que apresentam. Asseguro que é uma experiência única ler uma obra de Youichi Abe.


A sinopse de Dadai Wa pouco diz sobre a obra, em resumo seria "as histórias bizarras do cotidiano dos habitantes de uma cidade pesqueira." A sinopse é simples mas a obra é exatamente isso, um acumulado de bizarrices, com contos esparsos com elementos que se conectam um com o outro. Já é de se admirar a própria capa do primeiro volume, uma colegial que segura cabeça de uma menina demonstrando grande afeto. Lhes digo uma coisa, essa imagem da capa não é apenas um desenho qualquer, mas é basicamente a história do primeiro capítulo.

O primeiro capítulo é justamente sobre uma garota que mata e decapita sua melhor amiga porque ela passou a ser fria e praticar bullying com ela depois que os colegas de turma começaram a caçoar da grande proximidade das duas. O mangá também possui bastante gore, então você acabará vendo bastante sangue, além do ato de arrancar a cabeça propriamente dito. Ah, e já ia esquecendo, a cabeça da amiga ganha vida independente do corpo. As duas fogem e vivem altas aventuras enquanto são perseguidas pela polícia. Sim, esse é o tipo de bizarrice presente neste mangá.


Como praticamente cada capitulo conta uma estória distinta, não falarei sobre todos individualmente, mas sim trarei alguns apontamentos sobre o que achei interessante e digno de notas em capítulos específicos. Como eu havia dito, Dadai Wa não possui um enredo único, então a coisa mais próxima de um enredo são os capítulos que mostram uma menina solitária que mata invasores alienígenas que se parecem exatamente com peixes e outras criaturas marinhas e depois os come. Ninguém acredita nela, mas ela continua a lutar assim mesmo. Esta menina é bem decidida, mas demonstra um vazio existencial motivado pela solidão que vai se intensificando ao longo do mangá.

Além disso, há um outro personagem que aparece na maioria das estórias, um policial que está sempre machucado e de muletas, profundamente cansado das crianças em sua cidade, que continuam a fazer coisas idiotas e entrar em situações de perigo. Ele não pode suportar isso, sempre se perguntando o que motiva as crianças em suas atitudes, ele personifica os adultos que não conseguem entender os jovens. Ele funciona como um analista externo na maioria das estórias, dando seu parecer sobre os eventos. O estranho que tanto para o policial como para os habitantes, os eventos estranhos não são estranhos! Seria tudo apenas uma "doideira" dos jovens.


Dadai Wa mescla eventos estranhos com o cotidiano das pessoas, com momentos felizes e muitos momentos melancólicos. Eu vejo esse mangá como uma alegoria a vários dilemas psicológicos que os jovens enfrentam. Por exemplo, há uma história na qual uma menina anseia por uma aventura, deseja que algo diferente aconteça na sua vida ordinária e pacata, mas não se dá conta que uma das suas amigas é uma menina gigante que alterna de tamanho, seja a altura de um prédio ou de uma girafa. Ou seja, ela simplesmente não percebe que ao seu redor há coisas interessantes e maravilhosas, apenas fica presa em seu mundinho. Quantas pessoas são assim não é?

Ao ler desde o primeiro capítulo, já se pode pressentir o que o mangá apresentará, uma infinitude de situações bizarras que fazem você se sentir como se estivesse dentro de uma alucinação. É realmente difícil compreender o que o autor quis dizer em cada capítulo, mas creio que ele realmente quis passar uma mensagem, como o capítulo que citei acima,. Parece que Youiche Abe tentou exagerar as coisas em seu mangá para sugerir uma apresentação psicodélica de várias situações cotidianas, basicamente, sentimentos e angústias dos jovens, como solidão, amizade, amor.


Para consubstanciar o que eu disse acima, tomemos por exemplo um capítulo no qual na história há uma menina que possui uma doença rara e muito curiosa, a "doença bakushi", que faz a pessoa explodir quando o batimento cardíaco sobre demasiadamente. Esse nome significa literalmente "morte por explosão", um termo utilizado para se referir a quem morreu nos ataques nucleares em Hiroshima e Nagazaki. Mas enfim, a menina deste conto possui medo de revelar seus sentimentos para o menino que gosta em virtude de poder explodir. Essa é uma boa analogia para o medo que os jovens tem de revelar seus sentimentos e se machucarem posteriormente.

A menina que combate os alienígenas com forma de animais marinhos é a personagem mais bem desenvolvida e complexa, claro, se não qual seria o sentido de fazer sua história se conectar com a maioria dos capítulos de Dadai Wa. Ao longo do mangá vamos entendendo aos poucos qual a situação desta curiosa personagem. Sabemos que ela se sente muito sozinha e por trás de uma fachada de força e independência, ela se sente triste por ninguém saber e reconhecer o esforço dela em salvar sempre a cidade.


Eu poderia citar ainda mais alguns exemplos de estórias nas quais se por fazer paralelos com questões existenciais, como o capítulo sobre uma menina que simplesmente se fecha em uma espécie de casulo quando é submetida a uma situação constrangedora e acredita ficar mais forte cada vez que sai do casulo. Claro, creio que há algumas estórias nas quais não há intenções de analogias tão escancaradas como o caso do capítulo em que uma garota é intimidada por uma das renas do Papai Noel com intensões psicóticas.

Dadai Wa tenta fazer com que tudo pareça natural mesmo que seja a coisa mais maluca possível, seria algo como fazer o extraordinário parecer comum. Sem sombra de dúvidas trata-se de um mangá bizarro e fascinante, sendo uma experiência gratificante para aqueles que têm afinidade por trabalhos experimentais e insanos. Embora o conteúdo possa parecer pesado e angustiante, a maneira de como os personagens lidam com essas situações torna tudo mais leve, como se fosse um fato comum e rotineiro você achar uma cabeça falante por aí ou um alienígena em forma de lula ou marisco.


Em questão de arte, o mangá também possui originalidade. O traço do autor preza por um uso acentuado de contraste, com bastante uso do preto. Ele deve ter gastado bastante tinta para desenhar este mangá, bem como em todos os outros mangás em que ele é o autor, já que este é seu estilo usual. A naturalidade em que ele retrata cenas consideradas pesadas e o gore combina perfeitamente com o tipo de mensagem que ele quer passar, ou seja, reforça o seu esforço em criar uma anormalidade na excepcionalidade.

Os cenários também são dignos de nota. O autor conseguiu dar uma atmosfera interessante na cidade pesqueira na qual se passa o mangá. Bem como, as criaturas marinhas e outros elementos dos quadros são muito bem detalhados e desenhados. As cenas de ação também ficaram bem desenhadas. O gore ficou muito bem representado nas cenas malucas onde haviam cortes, tiros e lutas contra alienígenas marinhos.


Por fim, Daidai wa, Hantoumei ni Nidone suru é um trabalho que fascina não tanto apenas por sua bizarrice, mas sim pela capacidade de passar um conteúdo interessante por um meio tão incomum. Este é um mangá altamente recomendado, incrivelmente, único, cheio de coisas malucas e ocasionalmente tristes. Alterna entre momentos engraçados ou trágicos. Todas as estórias que compõe Dadai Wa podem ser lidas individualmente, mas o conjunto da obra cria um cenário muito interessante. 


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