Shingeki no Kyojin: as muralhas entre a liberdade e o autoritarismo

Poderia Shingeki no Kyojin conter uma mensagem política e ser um ode à liberdade?

Shingeki no Kyojin é provavelmente um dos animes de maior sucesso dos últimos anos [1]. Um enredo pós-apocalíptico num contexto de desesperança global não poderia deixar de fazer sucesso. A ação desenfreada, a boa narrativa e os ótimos personagens fazem dessa uma obra dificilmente desconhecida do público otaku. Embora esteja longe de repetir o sucesso de um Pokémon, que até minha mãe conhecia, Shingeki no Kyojin certamente rompeu alguns muros. Sua trama foi interpretada politicamente por diversos grupos. Foi tanto acusada de fortalecer um discurso pró-militarista e saudosista com relação ao Japão imperial quanto usada por grupos anti-sistema, como nas jornadas de junho de 2013 no Brasil [2]. A terceira temporada do anime chega para ajudar a esclarecer algumas coisas. Me parece ficar claro que a narrativa é claramente anti-ditatorial e defende ideias de liberdade a todo momento. 


"Pássaros na gaiola": a busca por sentido para além das muralhas

Desde o primeiro episódio, Shingeki no Kyojin demonstrou que não seria apenas mais um anime de porradaria e, pelo menos, uma grande questão político-filosófica é colocada: o dilema da liberdade e da segurança [3]. A dúvida é se liberdade e segurança são valores opostos ou complementares. Antes do primeiro minuto de anime, quando o Titã Colossal aparece, Eren narra que a humanidade lembrou "o quão horrível era viver engaiolado". Assim, o dilema filosófico acima aparece da seguinte maneira na obra: é melhor a segurança dos muros, mas viver como "pássaros na gaiola" ou viver livre pelo mundo, mas na insegurança de ser morto pelos Titãs? 

Os personagens entram nesse debate a fundo no quarto episódio e inclusive justificam suas preferências a partir de outro conceito filosófico: o de "natureza humana". De um lado, personagens como Annie e Jean afirmam que está nessa natureza o desejo por uma vida confortável e trabalhar na polícia militar garantiria isso. Do outro lado, o que é simbolizado principalmente na figura de Eren e da sua vontade de entrar para a Tropa de Exploração (ou Reconhecimento), vemos a defesa de que nossa natureza envolve a liberdade. 


O primeiro episódio começa e termina com essa significativa metáfora do engaiolamento humano. Ser livre é viver de forma segura e confortável ou explorar o mundo e conhecê-lo em toda sua vastidão? Ter segurança é realmente ser livre ou uma falsa liberdade?

Não vou me estender na questão da natureza humana, porque já debati isso em outros momentos (vide a análise de Kemonozume). O fato é que, evidentemente, não existe uma natureza humana única (ganância e conforto, por exemplo) quando pessoas mostram desejos contraditórios (Eren sendo a contra-prova, nesse caso). Também é impossível cravar que a liberdade seja parte da natureza humana sem cair num debate igualmente metafísico. O que fica é que as ambições e motivações (que parecem ser "naturais") são formadas a partir das nossas experiências concretas (sócio-culturais). De qualquer forma, Shingeki no Kyojin me parece um ode à liberdade e à necessidade (sócio-cultural) de atribuir "sentido" a vida que se vive. 

Embora as pessoas evidentemente desejem conforto, além de Eren, diversos personagens demonstram a necessidade por um "a mais" na vida. Parte do que impede as pessoas de buscarem essa liberdade, no anime e na vida, é o medo ou a insegurança. No caso do anime, uma insegurança materializada na figura dos Titãs. Mas os Titãs podem ser entendidos como uma metáfora para "fantasmas" que criamos e nos assombram, não permitindo que busquemos algo para além dessa segurança ou, na verdade, da aparência desta. Se vocês, leitores, já não estão fazendo paralelos com suas próprias vidas nesse momento, vou tentar fazer aproximação a partir de uma música chamada "Muros e Grades", do grupo Engenheiros do Hawaii. Diz ela:

"Nas grandes cidades do pequeno dia-a-dia
O medo nos leva a tudo, sobretudo a fantasia
Então erguemos muros que nos dão a garantia
De que morreremos cheios de uma vida tão vazia
[...]
Nas grandes cidades de um país tão violento
Os muros e as grades nos protegem de quase tudo
Mas o quase tudo quase sempre é quase nada
E nada nos protege de uma vida sem sentido"

Essas oito linhas expressam muitas similaridades com a interpretação que tenho do anime em questão. E é interessante pensar como obras distantes, no tempo e espaço (uma música brasileira, de 1991; e um mangá/anime japonês, de 2009), possam refletir um mesmo sentimento da superação de "uma vida sem sentido" enquanto se fica preso entre "muros e grades" por conta do medo. Independentemente de se o medo é real ou não, a questão é que às vezes o que mais prende as pessoas é a projeção do medo do que o medo real propriamente falando - seja no caso da vida real ou do anime.

Outro paralelo poderia ser traçado com o filme A vila. Sem entrar em spoilers da película em questão, o que une as duas (ou as três) obras é a igual projeção de um medo que impede as pessoas saírem de um vila. Em todos os casos, porém, as pessoas querem entender os sentidos de ficar no local em que se está e querem sair na busca de sentido. E é interessante como isso aparece mais forte ainda na terceira temporada do anime. Mesmos antagonistas, como Kenny e sua gangue, falam explicitamente nessa busca. Ele reconhece que sua motivação é a busca pelo poder, mas identifica variadas coisas que dão sentido as vidas das pessoas: família, religião, bebida, sonhos, mulheres, etc [4]. O interessante é que não há um julgamento de valor com relação a qual "objeto" é mais ou menos digno. Afinal, cada um projeta um sentido diferente para suas ações e tudo aquilo que dá sentido as suas vidas é funcional com relação ao que querem ou buscam. 


Eren demonstrou desde o início sua inquietude com a falta de liberdade que era essa viva "engaiolada" e questionava aqueles que viviam passivamente esse tipo de vida 

Dentro do dilema segurança-liberdade, veremos de onde Eren tirou boa parte de seus ideais. Através de flashbacks, seu pai demonstra preferência pelo segundo ideal quando diz que a existência do Reconhecimento "representa a liberdade em nossas almas" e que por isso eles são mais sábios que os cidadãos comuns que se contentam com suas vidas mundanas. No entanto, é a mãe de Eren, Carla, que oferece o contraponto a essa visão. Um dos amigos do pai de Eren, Keith, fica furioso com as pessoas "normais" por serem passivas de mais e não produzirem "nada de útil na vida". A mãe de Eren então responde a Keith: "é errado não ser especial?" [5]. O interessante aqui é que, por mais que a liberdade possa ser o valor mais nobre a ser defendido, Carla nos ajuda a fazer como Kenny e não colocar um valor como mais importante que o outro. Keith tem um complexo de inferioridade por não ser especial, mas a resposta de Carla nos faz pensar que talvez ninguém seja tão especial assim. E tudo bem.

Em resumo, trata-se daquilo de que uma das companheiras de Kenny diz: faz-se "tudo para buscar algum sentido em nossas vidas, nesse mundo sem sentido" [4]. Trata-se também de não menosprezar os sentidos que guiam as outras pessoas. Só porque parecemos muito valorosos na busca pela liberdade não quer dizer que sejamos especiais. Talvez o que seja especial é o mundo em que estamos e que podemos explorar, ao menos é o que diz Carla novamente. "Ele já é grande", diz ela, "porque nasceu nesse mundo" [5]. Se a busca é apenas por comida e bebida, liberdade ou por ver o mar (como Armin relembra no último episódio da temporada), isso é indiferente. A grande importância talvez não esteja nos nossos sentidos, mas nas diferentes possibilidades de atribuição de sentidos, de viver e explorar esse mundo.


O grande fio condutor da terceira temporada (ou do anime todo) parece ser a busca por "sentido"

"Somos todos criminosos"?: totalitarismo, resistência e história

Se temos o embate de sentidos entre aqueles que querem ser livres e os que estão bem com a forma como a vida é, ainda falta um parte dessa equação. Os que se conformaram com a segurança das muralhas não buscam essa tal liberdade, mas também não impedem os que querem de buscá-la. Porém, a terceira temporada nos revela um grupo que controla essa sociedade e que quer cercear essa busca. Assim, no questionamento a esse grupo é que se constrói boa parte do enredo. O que me levou a questão: pode ser Shingeki no Kyojin, então, uma estória contra ditaduras? Achei que seria o primeiro a cogitar isso, mas já começaram algumas discussões nesse sentido [6]. Pretendo entrar nesse debate.

Primeiro, começarei destacando que o tom político-social já existia desde o início. Logo no segundo episódio, o narrador fala o seguinte: "Em pontos estratégicos da muralha, cidades como Shiganshina servem de isca para atrair os Gigantes. A função delas é diminuir os custos". Assim, poderiam se suscitar questões sobre desigualdade social. Quem teria planejado tal estrutura e isso beneficia a quem? A resposta cehga na terceira temporada quando a muralha Rose é invadida e os reis tem que tomar uma decisão: deixar as pessoas entrarem na muralha seguinte e correr o risco de falta de alimento ou deixar elas morrerem na Rose? Os reis escolhem a segunda opção. Poderia se traçar um paralelo entre as muralhas do anime e os Estados-nação no mundo real. Claramente um argumento muito similar é usado na questão dos refugiados ("eles roubam nossos empregos, nossa comida, etc") e que tem o poder prefere muitas vezes negá-los o direto à vida para preservar o seu.

Mais do que desigual ou hierárquico, o caráter ditatorial desse mundo vai ficando nítido conforme descobrimos que a Polícia Militar é usada para impedir que os cidadãos comuns saiam das muralhas. Aqueles que sonham com a liberdade são torturadas ou mortos. E tudo isso é feito em nome da paz. E é bastante interessante como um dos membros da polícia, Sannes, justifica suas ações: "A humanidade só existe porque eliminamos gente como eles. Deveriam nos agradecer! [...] Eu acredito no rei e na paz que ele trouxe para as muralhas. Acredito que as coisas que fizemos são justas" [7]. O trecho é interessante por dois motivos. Primeiro, aparece o sentido que o indivíduo atribuí a sua ação: manter a paz. E o sentido é verdadeiro para o agente, por mais cruel que seja. Segundo, porque é possível encontrar no mundo real essa identificação entre o indivíduo e um discurso maior que legitima um tipo de governo. 


Um dos soldados da polícia militar mostra que realmente acredita ao propósito a qual está servindo. É interessante como um governo autoritário justifica a violência quase sempre em termos de segurança e manutenção da paz.

Esse é um discurso típico de um governo autoritário, que pôde ser visto seja na ditadura brasileira que buscava preservar a "segurança nacional" contra os comunistas, seja no nazismo que visava preservar a ordem para evitar a "degeneração" causada pelos judeus. Carlos Brilhante Ustra, chefe do DOI-CODI, órgão repressor da ditadura brasileira, falou em um "dever" de vencer o comunismo e que a luta dos militares foi "para que o Brasil vivesse uma democracia" e, de maneira quase idêntica a Sannes, afirmou: "se não fosse a nossa luta, se não fosse o nosso trabalho, você não estaria aqui hoje" [8]. O famoso oficial alemão Adolf Eichmann, apesar de epítome da "banalidade do mal" de Hannah Arendt, "estaria satisfeito" se tivesse matado mais judeus, porque, bem, "nós teríamos destruído um inimigo" [9].

Assim, é interessante como o indivíduo acredita no que faz como sendo legítimo. O paradoxal é que ele mesmo se percebe como substituível e não tão importante. Sannes declara: "Outra pessoa vai tomar nossos lugares em breve. Apesar do nosso trabalho estar acabado, o ciclo recomeçará" [10]. Ele admite como é fácil substituir "soldados", meras peças de uma engrenagem maior. De forma similar, Eichmann, se via como uma mero "dente na engrenagem da roda gigante", cuja "posição era a mesma da de milhões de outros que tinham de obedecer" [11]. E a partir daí que Arendt construiu sua tese da "banalidade do mal".

O anime além de falar do funcionamento da ditadura e de seus membros também adentra no terreno de seus opositores, geralmente chamada de "resistência". Também há varias ideias que se projetam sobre ela de fora e que os próprios membros criam sobre suas ações. No Brasil, tem sido muito comum a deslegitimação desses por serem "comunistas", "guerrilheiros" ou "terroristas". Há uma equiparação (ao meu ver errônea) das forças dos dois lados. Os poucos que assumem o lado sangrento da ditadura dizem que o outro lado foi igualmente violento. Ustra, por exemplo, diz que "excessos podem ter havido de ambos os lados" [8]. Mas essa não é uma tese somente brasileira. Existe, por exemplo, a chamada "teoria da ferradura", atribuída a um francês, que diz que dois extremos do espectro político tendem a se equivaler (em vez de se opor) e que tendem a totalitarismo e a violência. 

Armin parece apoiar essa visão. Quando Levi e Hange capturam policiais e começam a torturá-los para extrair informações, ele diz o seguinte: "Somos todos criminosos agora. Começamos a matar nossos inimigos, não porque irão nos devorar se falharmos, mas porque pensam diferente de nós. Não! Talvez seja porque eles são parte de um grupo diferente.... Não podemos mais dizer que somos boas pessoas" [12]. A partir dessa fala, pretendo criticar tanto ela quanto as suas expressões no mundo real. É muito comum, desde Friedrich Hayek até Arendt, essa tentativa de equiparação de extrema-esquerda e extrema-direita a partir da ideia de "totalitarismo" [13]. A argumentação é quase sempre no mesmo sentido de Armin: ambos lados não conseguiriam lidar com o divergente. A questão do "grupo" aparece já que há uma crítica recorrente ao "coletivismo" em detrimento da liberdade individual feita por esses autores.


O anime também coloca em questão os meios de se resistir a um governo autoritário. Há violência é a única solução? A oposição entre a resistência e o poder estabelecido é meramente em termos de pensamentos diferentes?

Mas há vários teóricos importantes, como Domenico Losurdo e Slavoj Žižek, que questionam essa noção de "totalitarismo" [14]. Eles entendem essa categoria como uma visão centrista, que se pretende neutra, mas que, na verdade, é a favor do status quo. Ao se equiparar um extremo que pretende alterar essa sociedade com um que pretende preservar seus valores há uma falsa equivalência. De forma simples, agredir um nazista seria errado porque você estaria usando os mesmos métodos dele: a violência [15]. Estou com Losurdo e Žižek, para quem essa equivalência dos meios esconde a divergência dos fins. Ao meu ver, não se pode equiparar o desejo de eliminar negros, homossexuais, imigrantes (extrema-direita) ao desejo de eliminar quem pensa assim (extrema-esquerda anti-fascista). Além disso, a disparidade de forças entre um governo ditatorial e um punhado de guerrilheiros é tão notável, que até Ustra reconhece: "Não chegou a 500 mortos de ambos os lados - 119 do nosso e quase 400 deles" [8].

O que Armin não percebe, ao meu ver, é que eles não estavam atacando alguém por pensar diferente. Em primeiro lugar, porque esse alguém não agia só com o pensamento, mas, sim, com ações violentas, como a tortura. E para usar frase que a extrema-direita gosta contra ela mesma: "não se combate armas com flores". Em segundo lugar, esse alguém não era simplesmente alguém que pensava diferente, era alguém que não permitia que os outros pensassem diferente. E não se pode tolerar o intolerante, diria mesmo o liberal Karl Popper ao formular seu "paradoxo da tolerância". Mas o dilema de Armin é justificável; em filmes tão diversos, como O que é isso, companheiro? (brasileiro, de 1997) ou Flammen e Citronen (dinamarquês, de 2008), vemos como os membros da resistência também ficam em dúvida sobre suas táticas e hesitam em usar métodos violentos.

Porém, para manter uma ditadura, não basta apenas a coerção, é preciso também o consenso, para usar a "fórmula" de Maquiavel. Toda ditadura, e isso quem diz é Arendt, precisa do controle das ideias também. Na verdade, isso vale para qualquer sociedade, seja ela uma ditadura ou não, como demonstraria Antonio Gramsci com o conceito de "hegemonia". No anime, duas formas são usadas principalmente para criar uma "verdade" oficial: a história e os jornais. Descobrimos nessa temporada que o pai de Erwin era um historiador que questionou o discurso oficial do governo sobre a história das muralhas e acabou morto por isso.

Em outro momento, aparece a mídia: um comerciante é morto pela Polícia Militar, mas é preciso atribui a morte ao Reconhecimento. O repórter mais velho já sabe disso, porque já incorporou o ideal daquilo, mas um novato começa a fazer perguntas, ao que o mais velho diz: "Ele não sabe como fazemos as coisas dentro da muralha". E como eles fazem as coisas lá? Manipulando a história. Um filme que explora bem esse tema é Uma História de amor e fúria em que a verdade da classe dominante é a que predomina. É dito nele: "meus heróis nunca viraram estátuas; morreram lutando contra quem virou". Com isso, se questiona quem tem o poder de estabelecer as verdades, de dizer quem é "herói" e quem é "vilão" (ou quem é "cidadão de bem" e quem é "terrorista"). E às vezes essa "verdade" é tão forte que as pessoas acreditaram nela independente de tudo. Por exemplo, quando Hange encurrala alguns policias militares e faz eles confessarem os crimes para os moradores do local ouvirem, um deles responde: "E daí, o que isso importa? É o governo que decide o que é verdade" [16].


A "verdade" pode ser uma questão de decisão? E quem pode decidir o que é verdade?

E, para concluirmos essa discussão, voltamos às justificativas. Mesmo Erwin lutando pela memória de seu pai e desejando confrontar o poder estabelecido, ele se questiona se fez a coisa certa: "Pelo que a humanidade sabe, deveríamos ter deixado o governo fazer o que quisesse" [17]. Pyxis também compartilha essa ideia ao perguntar: "E deduzo que sem essas medidas [de manipulação] a humanidade não duraria muito dentro das muralhas, certo?" e Erwin responde que sim [18]. Assim, seria legítimo tão controle para manter a segurança?

Mas, no fim, Erwin me permite responder as minhas questões iniciais sobre desigualdade e distribuição do poder. Ele afirma: "Eu me perguntei desde então por que meu pai precisava morrer só porque estava perto da verdade. Até o governo deveria ter um senso de justiça. Porém, eu descobri algo sobre eles. Eles não estão tentando proteger a humanidade, mas sim seus jardins, casas e terrenos" [18]. Eis uma reviravolta que pode superar o dilema segurança-liberdade. Esse modelo trazia uma falsa segurança, pois ele mesmo era uma ameaça a segurança dos divergentes, e não garantia a liberdade. Haveria a possibilidade, então, de uma liberdade com segurança para além da vida nas muralhas? Eis o que veremos na quarta temporada... ou não.

Erwin faz uma ligação entre o poder do governo estabelecido e a ganância pela posse de bens materiais. Política e economia, público e privado, aparecem como indissociáveis.

Considerações finais

Definitivamente a terceira temporada de Shingeki no Kyojin foi a melhor até agora. Não só pela ação e o desenvolvimento do enredo, que sem dúvidas foram sensacionais, mas por essa ênfase nos tons políticos do anime. Se já existiam questões filosóficas colocadas desde o início da estória, agora elas chegam no ápice e puderam ser bem exploradas. Se Hajime Isayama ou a equipe do Wit Studio realmente queriam passar toda essa mensagem é uma coisa que não posso afirmar. O que é certo é que quem curte um anime com mensagens políticas irá apreciar muito essa temporada. Talvez seja difícil que tenha algum otaku que ainda não conheça ou não tenha assistido o anime, mas eu digo que vale a pena mesmo para quem não curte muito as animações japonesas e que essa pode ser uma ótima porta de entrada para esse mundo.

Notas

[Nota 1: O mangá foi considerado um hit tanto no Japão quanto nos Estados Unidos, sendo foi "um divisor de águas no mercado". Segundo análise de executivos da Kodansha, "em uma época de baixa popularidade de mangás, a série propiciou uma renascença da demanda por quadrinhos japoneses" (https://www.finisgeekis.com/2015/09/18/entrevista-como-attack-on-titan-expandiu-as-fronteiras-do-manga/)]

[Nota 2: https://www.finisgeekis.com/2015/03/16/o-tita-da-militancia/ e https://en.wikipedia.org/wiki/Attack_on_Titan#Political_interpretations]

[Nota 3: De forma geral, essa é uma noção que sintetiza muito a percepção de Thomas Hobbes, por exemplo: ele acredita que no "estado de natureza" somos livres, mas inclusive livres demais. Sendo todos tão livres, não há controle que possa impedir as pessoas de agredirem mutuamente ou se matarem. Assim, surge a necessidade de se abdicar de parte da liberdade para, transferindo-a ao Leviatã, ao rei, ao Estado, ganhar em termos de segurança. Sigmund Freud, e Zygmunt Bauman resgatam o debate e você pode ver aqui a síntese de Bauman sobre seu pensamento e do Freud. Filósofos menos conhecidos, como Mohamed ElBaradei, são aqueles que sugerem que é uma falsa oposição. Tal dilema aparece em outro anime já analisado por mim aqui no blog, Kino no Tabi.]


[Nota 4: Praticamente no episódio 47 inteiro, Kenny reflete sobre a ideia de "sentido" para as ações das pessoas; ênfase especial pode ser vista quando ele fala com seu novo esquadrão (12:47-14:30) e dos diferentes sentidos que movem as pessoas que conheceu (16:48-17:22). Uma de suas aliadas já tinha começado essa reflexão ao fim do episódio 43 (20:48-21:21). Os minutos do vídeo, se referem sempre a versão do site que assisti: Animehouse.net.]

[Nota 5: Todas as menções nesse parágrafo se referem ao episódio 48. A conversa entre o pai de Eren e Keith acontece em 13:58-14:31. O desabafo de Keith para Carla começa em 17:46-18:41; e só termina com a resposta da mãe de Eren a partir de 22:10.]

[Nota 6: Na verdade, só encontrei um texto a respeito disso. Uma excelente análise conjugando o anime, a sua nova abertura e o momento político do país foi feita por "Setsuna", em 19 de outubro de 2018, no site Medium: https://medium.com/@alave/shingeki-no-kyojin-1e6ba29b81b6]

[Nota 7: Episódio 39; 18:01]

[Nota 8: Em entrevista concedida a Zero Hora em 2014; ver: https://web.archive.org/web/20140429183219/http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/pagina/coronel-ustra.html]

[Nota 9: Durante muito tempo a tese mais aceita sobre Eichmann era de que ele era apenas um funcionário que executava burocraticamente tarefas sem pensar. Arendt propôs essa tese ao analisar seu julgamento e cunhou o termo "banalidade do mal", por acreditar que Eichmann não era mal em si mesmo, mas apenas uma espécie de robô que executava ordens. O mal se tornava, então, banal porque ele não o contestava, escrevia Arendt em Eichmman em Jerusalém. No entanto, investigações mais recentes, como Eichmann: His Life and Crimes, de David Cesarini, e Eichmann Before Jerusalem, de Bettina Stangneth, contestam essa tese e demonstram como Eichmann havia incorporado os ideais do regime. Ele "não era um monstro nem um robô", conforme o The Age; era um homem que se tornou um genocida. Quanto a citação que trouxe no texto, é do próprio Eichmann; aparece, com alguma variação na escrita, tanto no The Age como no Daily Beast.]

[Nota 10: Episódio 40; 8:25]

[Nota 11: https://www.folhadelondrina.com.br/geral/eichmann-diz-em-memorias-que-foi-apenas-peca-na-engrenagem-nazista-263380.html]

[Nota 12: Episódio 39; 17:31]

[Nota 13: No caso de Hayek, em O caminho da servidão; e, de Arendt, em As origens do totalitarismo.]

[Nota 14: Ver, quanto a Losurdo, "Para uma crítica da categoria de totalitarismo"; e, de Zizek, Alguém disse totalitarismo?]

[Nota 15: Parece que todo o establishment da ciência política e da filosofia concorda com isso, de certa forma. Quando houve um famoso caso de neo-nazista que levou um soco durante uma entrevista, a Vice recorreu a um especialista americano em ética para discutir a questão e esse foi o veredicto dele. (https://www.vice.com/pt_br/article/9ad9ez/soco-nazista-etica)]

[Nota 16: Episódio 41; 4:14, para a cena da conversa entre os repórteres; e 16:46, para a fala do soldado desmascarado.]

[Nota 17: Episódio 42; 16:12]

[Nota 18: As citações desses dois últimos parágrafos são de uma conversa entre Erwin e Pyxis no episódio 40, a partir dos 19:52]



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